fracassos

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

DONO DE FRANQUIA FRACASSADO

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Depois de pedir demissão da indústria que eu trabalhara durante 5 anos ( ver METALÚRGICO FRACASSADO) a fim de usar a indenização na mal-sucedida tentativa de ir pros States trampar em sub-emprego ( ver TRABALHADOR CLANDESTINO NOS E.U.A. FRACASSADO), eu estava, neste 21 de dezembro de 2000, sem eira nem beira. Totalmente desempregado, apenas com o segundo grau completo, e sem formação profissional, tava literalmente fudideodó.Várias buscas de emprego, sem sucesso, em tudo quanto era lugar. Rejeição geral em todos locais: balconista de loja, ajudante de pedreiro, empreiteira da CSN, vendedor, empresa de manutenção de linha férrea, o escambau. Sempre as mesmas respostas: “Não temos vagas”, “Não tem estudo”, “ Sem formação técnica”. Eu não tinha aptidão nenhuma. Só me restou usar o resquício da grana da rescisão, uns 8 mil reais, pra fazer a única coisa que eu sabia fazer bem: vagabundear e encher a cara. Tomei a resolução: ia torrar a grana comprando uma moto Yamaha Virago 250 Cc ( uma imitação chinfrin da chopper Harley Davydson) e rodar o Brasil enchendo o pote de cidade em cidade até acabar a grana. Começando pelas cidades históricas de Minas: Ouro Preto, Mariana e São João Del Rei. Esbónia total, até que o meu fígado agüentasse ( ou a grana acabasse). Botei a grana no bolso e fui pro Rio de Janeiro comprar a tal moto que eu tinha visto anunciada no jornal O Balcão. Antes de ir na revendedora, dei uma volta na zona sul a fim de tomar umas cervas. Na peregrinação de bar em bar, rodei tomando Brahmas e Bohemias nos botequins mais tradicionais da cidade maravilhosa. Cabeça tonteando, hora passando, acabei me esquecendo de ir ver a moto. Já tava pra lá de Bagdá. Melhor dizendo,sem saber com, fui parar em plena Barra da Tijuca, dentro do shopping Cittá América, atrás de mais um barzinho maneiro. Alvoroço no shopping, percebi um burburinho acerca da inauguração de uma filial brasileira do Hard Rock Café, o mais famoso restaurante temático do mundo. Parti pra lá.

Paguei uma puta grana pra entrar. Fiquei de boca aberta. O lugar era chique pra caralho, com vista para a Lagoa de Marapendi e para a Pedra da Gávea, dois cartões-postais ducaralho da cidade. Rodei tudo. Vi que a lugar tinha três bares, um terraço, pista de dança e ainda uma área VIP. Não economizaram também na decoração. Contei a dedo: 367 peças - guitarras, capas de discos, roupas e partituras - que pertenceram a astros como Madonna. Guitarras de Rita Lee e de seu marido, Roberto de Carvalho. Li na parede, pasmo, que a coleção da cadeia mundial tinha 63 mil objetos, no valor de US$ 37 milhões, e que havia começado em 1971, quando Eric Clapton havia doado sua guitarra ao restaurante de Londres para marcar o seu lugar predileto no bar.

Porra! Na loja, não faltavam as famosas jaquetas de couro, camisetas, miniblusas, pins, chaveiros e até moda praia, para se adaptar ao verão carioca . Tudo com o inconfundível logo da rede.

Pedi uma pinga, não tinha. Só whisky. Pedi dose dupla. Mais uma facada no bolso. Pirei. Aquela porrada de imagens e logos da loja latejavam na minha cabeça. Me bateu uma puta revolta. Por que neguinho tinha que pagar pau praquela porra de cultura norte-americana? Tinha que ter uma porra daquelas aqui no Brasil! Cultura brasileira. Pinga em vez de whisky. Sérgio Reis em vez de Jimi Hendrix. Aipim em vez de batata chips. Música caipira em vez de rock. Pedi mais dois whisky. Peguei um guardanapo e comecei a anotar tudo o que via. Bebi tanto que dormi ali mesmo na mesa. Pela manhã o garçom me acorda. Levanto de ressaca. Ônibus, ônibus e ônibus. Seis horas depois chego em casa, na minha cidade. Ressaca, durmo gostoso como um urso. Acordo só no dia seguinte. No saldo, um preju maneiro da zoeira carioca. Ao tirar o maço de cigarro do bolso do casaco, cai uma porrada de guardanapos cheios com anotações. Os guardanapos, todos, com logos timbrados: Hard Rock Café. Save The Planet!. Começo a ler. No último, desenhado à bic, um logo parodiando o do guardanapo: Hard Roça Cachaça. Sarve esse mundão, sô!

Estava me recordando, em flashes, das idéias que me ocorreram enquanto eu estava enchendo a cara no lugar. Acendi um cigarro. Olhei de novo pro desenho que eu havia feito. Vesti rápido a roupa, saí de casa e fui atrás de um amigo designer, o Kiko, que fazia estampas silk-screen em camisas. Mostrei o rascunho do logo pra ele e pedi que refizesse exatamente como eu queria. Fui buscar no dia seguinte. Saí com o desenho na mão seguindo meu propósito. Fui num serralheiro e pedi que fizesse uma placa em alumínio de 3m x 2m e uma barraca, onde essa placa se encaixasse acima. A barraca com prateleiras, balcão e caixa pra gradar dinheiro. Peguei num caminhãozinho no dia seguinte. Saí de lá e voltei no Kiko pedindo que pintasse a enorme placa com o logo do Hard Roça Cachaça. Sarve esse mundão, sô!

Uma semana depois, barraca pronta e pintada, fui consegui uns ramos de sapê e umas cascas de árvore e revesti a barraca. Rústica como eu queria.

Do jeito que eu esperava, o Hard Roça Cachaça estava pronto. Já estava tudo planejado. Sabia o que vender e onde. Aluguei um ponto na exposição agropecuária da minha cidade. Um mega-evento que chagava a reunir mais de vinte mil pessoas num só dia.

Comprei cento e cinquenta litros de pinga, trinta litros de mel e trinta litros de melaço ( aquele caldo doce e grosso extraído da cana). Coloquei a barraca no local alugado e, copinhos de bambu artesanalmente feitos à mão, comecei a vender pinga misturada com mel ou com melaço. Uma semana de festa. Percebendo a intenção de parodiar a minha rival ( já considerava assim), vários clientes perguntavam sobre camisas com o logo da barraca, tal como as que o Hard Rock Café vendia. Pedi ao Kiko que pintasse algumas, vendi rapidamente. Pedi mais e mais, vendi todas. Repus o estoque de pinga umas três vezes. Vendia aipim frito também, no saquinho, como batata chips. No som da barraca, só música caipira e forró. Ao final, o resultado financeiro fora melhor do que o esperado. Fiquei empolgadíssimo. Ia finalmente ganhar grana fazendo uma coisa que gostava.

Rodei vinte e seis cidades do estado, de festa em festa, durante o período de um ano e meio, vendendo muita pinga, aimpim frito e camisas, muitas camisas. Na camisa, à cópia da rival, escrito Hard Roça Cachaça e abaixo, por exemplo, o nome do local: Santa Rita de Jacutinga. Mais de duas mil camisas vendidas plas cidas por onde passava. Boa grana entrando e muitas despesas também. Não conseguia guardar muito. Uma pequena reserva de dinheiro no banco.

Até que, esquecendo da minha vocação para o fracasso e picado maldita pela mosca da ambição desmesurada, investi toda a grana guardada num mega-estoque de bebidas sofisticadas ( muitos não queriam tomar pinga) e aluguei, pelo preço mais caro que já havia pago, o ponto numa mega-ultra-exposição agropecuária, numa cidade vizinha a minha, que tinha marcados shows de Daniel, Chitãozinho e Chororó, Zezé di Camargo & Luciano e Leonardo. Putamerda, eu ia, finalmente, encher os burros de grana, ganhar uma bufunfa maneira, abrir um bar fixo, montar franquias. Comprei, além das dezenas de garrafas de bebidas caríssimas, mais de quinhentos litros de pinga. Mandei fazer centenas de camisas com o nome da cidade. Como macaco velho teimoso, enfia a mão em cumbuca , investi até as cuecas. Eu, megalomaniacamente, eu já planejava os arrojados investimentos futuros.

O dia D. Noite alta, céu risonho, o lugar começava a ficar apinhado de gente. Vende daqui de dali, movimento muito mais frenático do que o de costume, dinheiro começando a entrar no caixa. Empolgação, frio na barriga, ansiedade. Primeiros pingos de chuva. Mutidão correndo pra debaixo das marquises. De chuva eu não tinha medo, já que neste um ano e meio já passara por várias delas e quase sempre não estragava a festa. E, além do que, dificilmente em uma semana de festa, acontecia de chover todos os dias.

A chuva apertou. Chuva torrencial. Chovia como eu nunca vira. Então eu percebi assustado que o local em que eu havia colocado a barraca, era o mais baixo de todo o gigantesco terreno do parque de exposições. Eu estava justamente em cima de uma espécia de ralo gigante do vale de morros que circundavam o evento. Chuva grossa. Tromba d’água. Eu segurando pra barraca não voar com o vento fortíssimo. Tomo um choque violento que me atordoa durante uns cinco minutos. Água no joelho. Apavoramento. Não sabia o que fazer. Um curto-circuito faz todas as luzes do lugar se apagarem. Ainda zonzo, vejo que a prateleira com as garrafas tinha desabado. Água na cintura. Lembro das caixas de estoque de bebidas. Vejo que todas estão submersas, arrastando-se pela correnteza do ralo gigante. Água acima da cintura. Passo a mão no caixa de dinheiro e consigo recolher as notas encharcadas de lama. Embolo o dinheiro que desfaz-se aos pedaços pelo meu dedo. Pondero e pendo na minha vida. Água quase no peito, saio dali e busco abrigo. Frio do cacete, encharcado e sujo de lama, pego poucas notas que ainda estão inteiras e consigo juntar pra comprar uma garrafa de whisky de uma barraca que estava no pavilão do alto, ilasa à chuva. Tomo a garrafa quase que num gole só.

Luz do sol abrindo os olhos à força. Arde os olhos e o estômago. Levanto-me e, em meio aos destroços, vou em direção do local da barraca. Num bolo gigante de lama, consigo distinguir camisas, garrafas quebradas, encaixes da barraca, tonéis de pinga estourados e, há uns vinte metros de distância, a placa anfiada na lama Hard Roça Cachaça. Sarve esse mundão, sô!



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