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sexta-feira, 8 de maio de 2009

ANIMADOR DE FESTA INFANTIL FRACASSADO

Dezembro de 1988 – 13 anos e seis meses de idade


Consegui meutão sonhado primeiro emprego! Minha tia me dissera que eu deveria apresentar-me às sete horas da manhã, numa sexta feira, em um determinado endereço para fazer um teste para animador de festa infantil.

Ansioso e esperançoso não dormi na noite anterior. Passei a noite acordado pensando em como eu deveria proceder para conseguir a vaga. Fui pregar o olho lá pras quatro e meia da manhã e, por conta disso, acabei não acordando com o despertador às seis horas. Dormi direto e acordei às nove. Olhei para o relógio e num susto pulei da cama, vesti a roupa de qualquer maneira e sem nem ao menos tomar café da manhã, parti à pé, numa correria danada em direção ao endereço em que estava marcado meu teste às sete horas. Cheguei lá mais ou menos nove e meia, todo suado, bufando, morrendo de fome e sede.

Entrei em uma saleta onde uma secretária, sem nem olhar pra mim, de cabeça baixa, lendo uma revista, foii logo dizendo, numa voz esganiçada, antes que eu conseguisse balbuciar alguma coisa:

- Teste pra animador infantil, galpão oito. Se ainda der tempo de você se apresentar....

E, de olho na revista, ainda completou:

- Passa na segunda sala à direita e vê se ainda tem alguma fantasia lá. Atrasadinho. Se tiver, já vista de uma vez pra adiantar o seu lado.

Olhei na tal salinha, havia em um canto apenas uma roupa meio brilhosa com algo que parecia uma cabeça gigante. Sem pensar duas vezes peguei a roupa e a cabeçona e vi que era da Magali da turma da Mônica. Tirei minha roupa, fiquei só de cuecas e tênis e vesti a tal fantasia. A maldita fantasia devia ser uns dois números a menos que o meu. Espremi, contorci e consegui à muito custo entrar dentro. Vesti o cabeção da Magali, uma espécie de cabeção de boneca gigante, oca, com um buraco embaixo do queixo pra que se encaixe a cabeça lá dentro. Não havia um suporte que impedisse que o cabeção, depois de encaixado, ficasse solto, balançando pra frente e pra trás. O único suporte era que o queixo e a nuca do cabeção ficavam presos no meu ombro. Para enxergar fora do cabeção, eu tinha que olhar pelo único orifício, com uma telinha branca, que era a boca do cabeção da Magali. Enxergava-se pouquíssimo, respirava-se menos ainda. Já totalmente vestido e com o cabeção encaixado, fui às pressas em direção ao tal galpão oito, não conseguindo ver quase nada, apalpando as paredes e tendo que encostar o dente da Magali ( que era por onde eu mal e porcamente enxergava) na porta de todos os galpões para conseguir ver os números.

Em frente ao galpão cinco, minha perna começou a tremer. Como o uniforme estava muito pequeno, a costura que passava pelo meio da fantasia acabou espremendo meus testículos e dividindo-o visivelmente em dois. A dor era insuportável, comecei a sentir uma câimbra na perna esquerda e um formigamento no pé esquerdo. Já estava quase desmaiando de tão abafado que estava para respirar dentro do cabeção. Tentava abaixar o queixo e puxar ar fresco do buraco que eu havia encaixado a cabeça, que era o papo e o queixo da gigantesca cabeça, mas não conseguia porque havia uma merda de um arame que fincava na minha bochecha e me impedia de fazer o movimento. Minha visão já estava turva, a dor no saco era insuportável, a perna esquerda repuxava cada vez mais, mas eu com muito esforço e determinação consegui chegar ao tal galpão oito. Empurrei-o e entrei em um pátio todo decorado com motivos infantis, balões aos montes, desenhos , muitas cores.

No centro do galpão, havia 23 animadores infantis já fantasiados como eu. Só que numa olhada rápida percebi que o único da turma da Mônica era eu. Tava lá toda a Disney. E pior: só personagens masculinos. Todos, que estavam voltados em direção ao centro de um círculo que haviam feito, ouvindo instruções de uma senhora ( a única que não estava fantasiada) viraram em minha direção, ao mesmo tempo.
“To fudida”, pensei eu. Magali, sozinha nesse inferno da Disney

A tal senhora saiu de dentro do círculo e furiosa veio em minha direção já dando esporro:

- Sua incompetente! Sabe a quanto tempo você está atrasada?

Porra, a coroa vendo-me em uma fantasia de Magali achara que eu era menina. Eu tentei explicar o atraso e que eu não era menina e minha voz não saía de dentro do cabeção, ficava abafada. Eu tentei com toda a força tirá-lo mas não conseguia, o arame fincava com muita força na minha boca e bochecha e pensei:

- Ahh! Deixa pra lá! Depois eu explico que não sou menina e porque me atrasei!

A tal senhora, depois que gritou comigo, virou as costas voltando em direção ao centro da roda ainda berrando:

- Ô sua imbecil! Vem pra cá pra ver se ainda dá tempo de você pegar a última explicação!

Fui mancado ( minha perna e meu saco ainda latejavam pra cacete!) em direção à borda do círculo de personagens da Disney para ouvir as preciosas instruções da experiente senhora. Havia um espacinho entre o Bafo de Onça e um Irmão Metralha. Quando eles perceberam minha aproximação, encostaram-se um no outro impedindo-me de conseguir aquele espaço.
Saí dali e andei, puxando de uma perna, em volta do círculo para achar uma brecha pra conseguir ver a instrutora. Percebi que todos estavam de conluio contra mim. Cutucavam-se uns aos outros, rindo ( eu percebia pelos seus ombros sacudindo) de alguma coisa em mim que eu não sabia o que era. Já haviam passado uns cinco minutos e eu não conseguia nem chegar na beira da roda e nem, ao menos, conseguir ouvir nada, até que que a instrutora berrou lá de dentro:

- Cadê a vaca da Magali ? Onde está aquela retardada?

Alguém pegou no meu ombro ( acho que foi o Tio Patinhas) e me jogou no centro da roda, caí de cara ( ou de cabeção) no chão. Todos me olharam gritando jocosidades:

- Magali sua vagabunda maconheira! Vive na larica!

- Magali. Magali. Cai de boca e morde aqui!

Gritavam em coro segurando seus genitais, até que a instrutora botou ordem:

- Silencio seus bostas! Virou zona essa porra?

Olhando pra mim com raiva:

-Levanta ô vagabundinha!

Levantei-me com muito custo. Depois do tombo, meu testículo esquerdo latejou mais forte ainda.

- Agora repita o que eu fizer!

E começou a fazer uma dança esquisita que resumia-se em dar tchauzinho com as duas mãos, rebolar e balançar a cabeça pra direita e pra esquerda. Parando de repente, apontou o dedo pra mim:

- Entendeu debilóide? Dança – tchauzinho – balança a cabeça !

“Dança – tchauzinho – balança a cabeça”, memorizei. E fiz. “Dança – tchauzinho – balança a cabeça”.

E a instrutora esgoelando:

- Todo mundo! Dança – tchauzinho – balança a cabeça!

E todos puseram-se a fazer a coreografia.

Já estava puto com aquela merda toda: falta de ar, não escutava e nem enxergava quase nada, não conseguiam ouvir o que eu dizia, câimbra na perna, formigamento no pé, testículo latejando pra caralho, Tio Patinhas me sacaneando. Dança – tchauzinho – balança a cabeça

O incrível é que, antes dessa experiência , eu nunca imaginara que por debaixo daquelas toscas e gigantes máscaras que atores de personagens infantis usam há um ódio e um desespero incontido que contrastam com o que vemos no exterior: um ingênuo personagem sorridente ( sim, todos os cabeções, sem exceção ostentam uma gargalhada estática) e brincalhão que dá felizes tchauzinhos e pulinhos para as crianças. Ninguém imagina o rancor que há por dentro daquela aparente felicidade.

A coreografia bizarra, que podia ser entendida numa só tentativa, ficou sendo repetida durante uns quarenta minutos.
Eu já não agüentava mais. O Bafo de Onça continuou me sacaneando.O Pato donald tava do lado dele e ria pra cacete ( o cara que tava dentro da fantasia ainda ficava imitando aquela risada de pato estranhíssima). O Huguinho e o Zezinho eram imparciais: não sacaneavam mas também não me defendiam, parecia que tinham medo do Bafo de Onça. Enquanto participávamos de uma dinâmica de grupo em que tínhamos que ficar andando em fileira, dançando uma música imaginária sem para o dança – tchauzinho – balança a cabeça, o bafo de Onça implicou de vez comigo: chutava meu calcanhar para eu tropeçar, dava soco na minha cabeça ( da Magali) até que passou a mão na minha bunda. Perdi a linha! Virei pra trás pra mandar uma porrada quanto percebi que ele havia sumido.

Olhei para os lados e não o achei o filho-da-puta. Perguntava, perguntava e ninguém me dava atenção. Eu tava sozinho, e pior, toda a banda podre tava contra mim: percebi que Os Metralhas puxavam o maior saco do Bafo. A galera casca grossa tava mancomunada e a vítima era eu. Eu tinha que ficar esperto. Naquela de andar em trenzinho pelo salão, todos no dança - tchauzinho – balança a cabeça, eu passei perto de uma mesa velha que estava com umas decorações infantis em cima e lasquei um pedaço de madeira. Ficou uma lasca pontiaguda e cheia de farpas. Escondi dentro da luva e continuei procurando o meu inimigo pelo salão. Agora ele vai se fuder, pensei.
Calor ! A câimbra na perna esquerda aumentava. Dificuldade pra andar. Mas minha determinação de vingança era o que me motivava. Até que o avistei. O sangue me subiu à cabeça. Eu não enxergava mais nada, minha sede de vingança e meu coração cheio de ódio só me faziam pensar em fincar aquele punhal de madeira podre no barrigão do Bafo. Fui andando rápido em sua direção até que a instrutora com um apito na boca soprou um estridente sinal e desviou a minha atenção. Todos pararam com o dança - tchauzinho – balança a cabeça - e viraram-se para ela.:


- Eu não quis avisar antes, mas na verdade vocês já começam hoje! Estão todos contratados! Esse galpão em que nós estamos é na verdade um salão de festas infantis e já está quase na hora da festinha de cinco anos do filho do excelentíssimo Prefeito da nossa cidade.

Todos urraram de felicidade. Eu, vendo-me nessa nova situação, deixei minha vingança pra depois.

Começou a chegar as crianças. Uma porrada de pirralhos barulhentos de uns cinco, seis anos de idade. Corriam em nossa direção. Criança pra cacete.Eu, precisando do emprego, dava o máximo de mim: dança - tchauzinho – balança a cabeça sem parar. A instrutora me olhando. Eu apavorado de dor, mas habilmente demonstrado pela expressão corporal a maior felicidade do mundo. Por dentro ódio, calor, câimbra, desejo de vingança, saco espremido, rancor, dor-de-cabeça. Eu, defintivamente, era uma ator, pensei. As crianças pulando à minha volta.

Até que deu-se um silêncio total na festa. A instrutora que era mestre-de-cerimônias da festança, anunciou a entrada do aniversariante, filho do excelentíssimo Prefeito ( a puxa-saco fez questão de frisar).

O molequinho pulou do colo do pai e, pro meu desespero, veio correndo em minha direção gargalhando, feliz com a minha presença:

- Magali! Magali!

Antes que ele chegasse a mim a instrutora, apreensiva, disse perto do meu ouvido:

- Cuidado com o garoto! Vê lá o que você vai fazer sua merdinha!

O menino parou esbaforido de êxtase na minha frente, eu sua heroína dos quadrinhos, eu num súbito ficou em silêncio , todos do salão olharam pra mim e pro garoto. A instrutora, a turma da Disney, o excelentíssimo prefeito, todas as crianças, olharam curiosos para o pequeno aniversariante. Fiquei nervoso. Silêncio sepulcral, até que o garoto começando a chorar compulsivamente grita a todos pulmões:

- A Magali tem saco!

E deu uma pancada com as duas mãos bem no meio da linha que estava dividindo dolorosamente meus testículos.

Uma dor insuportável me fez dar um urro e agachar de desespero.O desgraçado do Bafo de Onça, só pra me fuder me empurrou pra frente,fui catando cavado aos tropeções, perdi a força na perna da cãimba, cai de lado fraturando o ombro direito, tonto, falta de ar, comecei a chorar, veio uma porra de um moleque grande pra caralho, já de uns oito anos e deu um bicudaço na minha costela : Magali travesti tem saco, gritou o molecão.

Deitado no chão, todo dolorido, consegui ver a instrutora que olhava-me com ar de reprovação disfarçadamente mandando eu levantar e dar os malditos tchauzinhos. Eu precisava do trampo. Era meu primeiro emprego, motivo de orgulho. Juntei todas as minhas forças, levantei.

De pé, tal como um titã , obstinado a superar esses obstáculos, reestabeleci-me recomecei a dar os caralhos dos tchauzinhos, mantive-me firme. Lembrei : e comecei a fazer o “dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá”. O filho do excelentíssimo Prefeito distraiu-se com outra coisa e parou de chorar, sumiu da minha frente.



Apesar da tonteira , do calor e da dor-de-cabeça consegui manter durante uns quinze minutos o mantra “dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá”, até que começou o meu verdadeiro inferno. O filho-da-puta do Bafo de Onça que tava a fim de me ferrar mesmo, tava tendo alguma uma idéia maligna pra caralho contra mim: foi em direção ao tal gigante de oito anos que tinha me chutado quando eu estava caído e cochichou alguma coisa no ouvido do capetinha.


Eu acabei distraindo-me com o ardil do Bafo e, por um segundo, esqueci o maldito “ dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá” .Só senti um beliscão fudido na costela dado pela instrutora que falou baixinho mas assustadoramente perto do meu cabeção de Magali

- Sua vadia, você parou com a coreografia e a filhinha do Seu Arthur, vereador - de apenas 4 aninhos, que é a maior fã da Magali tá chorando pra caralho!! Vai lá e agrada ela!

- Sim senhora, senhora instrutora, desculpe, vou lá, respondi resignadamente.

Vi a menininha e fui sua direção, “ dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá” , a menininha me vendo parou de chorar. Olhei rapidamente pra instrutora, e vi que com um “sim” com a cabeça, finalmente aprovava-me. De tão envolvido com a situação acabei esquecendo-me da trama do Bafo com o demônio de oito anos quando de repente ouvi um grito estridente, infernal, virei pra trás e dei de cara com ELE, o anticristo, o satanás de 6 anos esgoelando: “OLHA O SACO DA MAGALI ! TÁ TODO PRUM LADO SÓ ! e deu uma porrada gigantesca com taco de beiseball que pegou as duas bolas de uma vez. Uma dor lancinante ! Comecei a arriar, e antes de cair no chão desmaiado de dor, percebi de soslaio pela gradinha embaçada do cabeção da Magali a gargalhada fúnebre do Bafo de Onça.

Um comentário:

Jean Álamo disse...

Puta que pariu, fora os erros de português, o texto é maravilhoso.
Quase bukowskiano. E pensar que descobri essa porra por acaso.