fracassos

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terça-feira, 30 de junho de 2009

BLOGUEIRO UNDERGROUND FRACASSADO



No primeiro dia de julho de 2008, imbuídos pelo nosso antigo espírito fanzineiro, eu e um camarada meu tivemos a idéia de fazer um blog nos moldes de um fanzine que confeccionávamos nos idos anos oitenta e noventa. Mais precisamente entre 1988 e 1993. Fanzine que datilografávamos textos, desenhávamos, colávamos recortes, criávamos fotonovelas pornô ( “O Mastro” [ O Peido nº 4 – abril de 1989] ), fazíamos entrevistas com bandas de rock ( [ “Gangrena Gasosa” [ O Peido nº 11 – novembro de 1992] ), resenhas de discos e livros ( “Li a Metamorfose, achei Gregor Samsa um barato!” [ O Peido nº 3 – março de 1989] ) , quadrinhos de própria autoria ( “Billruga” [ O Peido nº 2 ] ) entre outras barbaridades. Por final, xerocávamos e distribuíamos de mão em mão ou pelo correio. Trinta, cinqüenta cópias, no máximo. Intenção puramente underground. Nós nos contentávamos com esse pequeno, mas fiel, grupo de leitores. A periodicidade de impressão dos fanzines era mensal.

Como eu dizia, vinte anos depois, mais precisamente no 01 de julho de 2008 criamos um blog. Postagem semanais, assuntos diversos, mas a idéia principal era a de resgatar o esquemão do fanzine: liberdade para esculacharmos com quem quisermos e cometermos quaisquer atrocidades jornalísticas. Mas, principalmente, e sobretudo isso, ter poucos leitores como antigamente.

Ledo engano: o contador de visitas que colocamos no seu dia de criação contabiliza, pra nossa decepção, até hoje, perto de oitenta mil acessos.

Portanto, hoje, momento em que digito essas tortas linhas, 01 de julho de 2009, exatamente um ano após a criação do blog, deveríamos comemorar seu primeiro aniversário. Mas, infelizmente, como o nosso intuito principal - o de ter poucos leitores – foi por água abaixo, ficamos decepcionados.

O blog chama-se Bacharéis em Baixarias. Quem o faz? Nós, os mesmos ( um pouco grisalhos) editores do “O Peido”, agora sob duas alcunhas: Olavo Sader, editor & escroque chefe & Emir de Carvalho, lúmpen capitalista em busca de uns trocados.

Nosso texto de apresentação do blog:

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BAIXARÉIS EM BAIXARIA

Um nome a zerar! Apresentamos um novo conceito de blog. Todos os outros que você conhece foram idealizados e editados por pessoas altamente capacitadas. Aqui não, violão! Ao contrário dos habituais “gênios” incompreendidos que andam por aí, lamuriando-se pela ignorância da plebe ignara, e que na verdade não passam de verdadeiras bestas, neste espaço você encontrará bestas se esforçando ao máximo para atingir a genialidade dos leitores de blogs.

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Portanto peço, encarecidamente, que você, leitor do AUTOBIOGRAFIA DE UM MERDA, não o visite:

http://bachareisembaixaria.blogspot.com/


Ps> Esse tema me fez lembrar de uma coisa. Essa é para algum jornalista de plantão lendo essa merda que eu escrevo, e que esteja reclamando da recente queda do seu precioso diploma.

Ao que me consta, o Brasil é o único país em que existe tal exigência e não me parece que por isso nosso jornalismo seja melhor que o dos americanos, ingleses ou espanhóis, por exemplo. Aliás, há muitos jornalistas de reconhecida competência que estão na ativa hoje no Brasil e que não têm diploma de jornalista.

Acho que um médico que sabe escrever pode fazer muito melhor uma matéria sobre medicina nuclear, mudança de ministro, um assassinato ou mesmo um jogo de futebol do que um mau repórter, que exerce a profissão simplesmente porque é formado por uma faculdade de Jornalismo. O mesmo pode-se dizer de um pedreiro, físico, professor, funileiro, sociólogo, historiador, advogado etc.

Há bons jornalistas que o fazem sem ter nenhum destes diplomas. O que digo é que o simples fato de ser formado em Jornalismo não dá a ninguém mais ou menos condições para escrever a respeito daquilo.

Jornalista, diga-me uma coisa. Por acaso, Millôr Fernades, Ivan Lessa, Aparício Torelly, Glauco Mattoso, Max Nunes, Diogo Mainardi - e outros dessa linhagem - precisaram do referido diploma pra escreverem seus excelentes textos ?

Deixo claro, aqui, que considero o jornalismo puramente uma atividade intelectual que requer capacidade de conhecimento multidisciplinar, senso crítico apurado, intimidade com a palavra e olho clínico, o que, definitivamente, não tenho.

Afinal, sou apenas um velho fanzineiro.

domingo, 28 de junho de 2009

DANÇARINO DE BREAK FRACASSADO



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R.I.P. Michael Jackson / 1958-2009

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Foi o recente falecimento do meu ídolo Michael Jackson me fez lembrar disso. O mestre que era preto, ficou branco e virou cinza.

Michael sempre teve participação efetiva situações afetivas da minha vida. Pra se ter idéia de sua importância na minha trajetória, de coração apertado, digo que foi graças ao Michael Jackson que eu dei meu primeiro beijo de língua, ainda garoto. Nesse beijo, senti prazeres que até então eu nunca tinha sentido.

Michael, sentirei saudades!

Não está acreditando? Quer saber como isso aconteceu?

Vou contar:

Em setembro de 1982, auge do vinil, comprei meu primeiro bolachão, o disco se chamava Thriller.
Me recordo que, na época, eu fui o primeiro na minha escola a comprar esse disco. Hoje todos o conhecem, é claro. É o LP mais vendido da história. Acho que li uma pesquisa que fazia uma estimativa de que uma em cada onze pessoas do Planeta Terra compraram esse álbum. Mas considerando que, entre essas dez pessoas que não o compraram, se essa pesquisa tivesse descontado da população planetária: bebês; o povo esfomeado da África; retardados mentais; hermitões do Alasca; mendigos brasileiros; gente em estado de coma nos hospitais; surdos; paraplégicos que moram sozinhos e não podem ir até a loja de vinil mais próxima e malucos de hospícios, muito provavelmente TODO o planeta comprou esse disco.

Lembro muito bem, em março de 1983, quando vi na televisão, pela primeira vez , o clipe de Billie Jean e o passo moonwalk. Fiquei encantado. A dança era (é) foda! Virou febre no mundo. Quebrou barreiras raciais, sexuais e sociais. Nas ruas via-se negros, brancos, caminhoneiros, travestis com silicone mal colocado na maçã do rosto, crianças, velhos , ricos, pobres, homens, mulheres petistas com cabelo no sovaco, todos, todos deslizando pra trás no moonwalk. Eu ia pra escola deslizando para trás e todo mundo que via ficava assustado com a minha performance moonwalk. Eu recebia muitos elogios dos que me viam dançando. Lembro de uma vez que, a caminho ( de costas, deslizando) do colégio, um senhor bem velhinho me parou na rua gritando:

- Caralho, man! Parece que você tem rodinhas nos tênis.

Em seguida, o coroa botou uma mão na testa e outra no saco escrotal, e, imitando o Michael, deu um gritinho:

- ÁáU!

Assim que fez o gesto michaeljacksiano, ele disse que eu era fera ( Gira da época. Explico: leia-se “foda!”) na dança. Fiquei empolgado com aquilo.

Em 7 de maio 1984 estreou a novela “Partido Alto” na Rede Globo e na abertura o dançarino Nelson Triunfo e sua trupe apareciam dançando break e o moonwalk. Inaugurou-se, aí, oficialmente, o break dance no Brasil que logo em seguida começou a se espalhar pelo país e, a partir de então, começaram a pipocar concursos de break por todos os cantos.

Um ano depois, treinando bastante, fiquei fodão no moonwalk e no break.

Em maio de 1985 eu soube que finalmente ia haver um campeonato de break na escola em que eu estudava ( Barão do Rio Bonito). Um alvoroço! A molecada toda, na hora do recreio, deslizando de costas pra lá e pra cá.

Eu ia deixar de ser um merdinha. Era a hora de eu mostrar o meu valor. Me inscrevi no campeonato.

Chegado o grande dia, meti uma luva branca em apenas uma das mãos, arrumei uma calça de tergal preta pescando siri ( Gíria da época. Explico: leia-se “curta nas canelas”), sapatinho branco, cabelinho molhado de gel, jaquetinha prateada sem as mangas: era o próprio Michael tupiniquim.

Eu sabia que ia ganhar. Só tinha neguinho ( e branquinho também) desengonçado inscrito no concurso. Eu previa que ia ser o primeiro não-fracasso da minha vida. Eu tava preparado. Só com um pouco de sensação de caganeira pelo nervosismo, mas, fora isso, nada mais.

No palco montado no pátio da escola, em meio a balbúrdia geral e entre gritos histéricos das meninas e gritos michaeljacksianos dos concorrentes ( não muito diferentes dos das meninas), a diretora, mestre-de-cerimônias, anuncia o começo do campeonato.

De repente, alguém berra desesperadamente lá da mesa de som. Eu, nervoso, segurando a caganeira, e compenetrado no meu treino do passinho, não tinha ouvido direito. Até que a diretora saiu de cima do palco, dirigiu-se para a mesa de som e voltou apavorada anunciando no microfone que não tinham lembrado de levar disco pra tocar a música em que os concorrentes iriam dançar.

- Alguém aí na platéia trouxe o disco? – perguntou ansiosa a diretora.

Silêncio.

- Alguém tem em casa? Que possa ir buscar urgente?

Ninguém tinha o Thriller.

Eu tinha. Entre centenas de moleques, eu era o único que tinha.

Levantei a mão que estava com a luva branca e gritei:

- Eu tenho ‘fessora!

-Então vai buscar seu merda! Tá esperando o quê?

- Minha casa é longe ‘fessora!

Um cara, vizinho meu, o Alceu, que tinha levado o filho, o Odil, pra concorrer, veio pro meu lado e disse que me levava em casa de carro pra buscar o disco.

- Então vai logo seu bostinha! – gritou a diretora lá do microfone.

Saí de carro com o Alceu, ele pé na tábua, e cheguei em casa em dez minutos. Subi as escadas correndo, cheguei em casa, peguei o disco, saí, desci as escadas aos tropeços, cheguei na porta do carro, joguei a chave e o disco no banco do carona pela janela e, de repente, antes de entrar no carro, bateu uma caganeira fudida. Expliquei a situação pro Alceu e perguntei pra ele se ele podia esperar enquanto eu fosse no banheiro de casa rapidinho arriar uma massa ( Gíria da época. Explico: leia-se “cortar o rabo do macaco”). Ele me disse calmamente que sim, que ia esperar na boa.

Saí apavorado e subi correndo os dois lances de escada até que, chegando na porta, percebi que havia deixado a chave da porta no carro, lá em baixo.

Desço correndo novamente as escadas e, pra minha surpresa, o cara tinha picado a mula ( Gíria da época. Explico: leia-se “rapado fora”) com a chave da minha casa e com o vinil.

- Filho da puta do Alceu! Voltou pra escola sem mim! Foi de sacanagem! Só porque sabia que se eu concorresse com o Odil eu ia desbancar o fedelho! Vou chegar a tempo e ganhar esse concurso! Vou sim!

Saí disparado pela rua afora em direção à escola e, cem metros adiante, bateu a caganeira com força total.

A rua lotada de gente, eu não podia cagar nas calças ali. Banheiro não tinha perto. Até que tive uma idéia genial!

Fechei as pernas, tranquei o esfíncter bem trancado, virei de costas e chamei no moonwalk deslizando pelo meio da rua. Quanto mais a merda ia tentando sair, mais eu acelerava no passinho. Cada vez que a merda dava uma pontada na porta do cu eu gritava de desespero:

- Ááu!

As pessoas na rua ficaram em êxtase me vendo vestido de Michael Jackson, naquele moonwalk infinito e gritando “Ááu!”, iam aplaudindo fervorosamente.

- Dá-lhe Michael! – gritou emocionado um cara de óculos com cara de professor universitário.

- Ááu!

- Caralho, man! Parece que você tem rodinhas nos tênis! – gritou uma velhinha!

- Ááu!

Até que, depois de quarenta e oito minutos de moonwalk pelo meio da rua, chego na escola e, ainda em moonwalk, vou em direção ao pátio.

Quando cheguei lá, fiquei estarrecido. Não havia quase mais ninguém. O palco sendo desmontado. Fiquei parado no meio do pátio com cara de tacho, até que a Milena, a menina mais bonita da escola, já com doze anos, veio na minha direção e me disse:

- Que pena. O campeonato já acabou. O Odil ganhou, apesar de ter feito pessimamente o moonwalk. É que os outros concorrentes eram piores ainda. Mas, eu vi que você salvou o campeonato emprestando o seu disco do Michael Jackson. O único que tem o disco aqui na escola. Posso um dia desses ir lá na sua casa pra ouvir o disco? Por favor! Por favor!

Eu ainda em estado de choque e as pernas em estado de câimbra ( devo ter batido o record mundial de moonwalk a distância ) fiz que sim com a cabeça.

Ela eufórica, me abraçou e, sem mais nem menos, me deu um beijo de língua na boca. Como eu nunca havia beijado na boca antes, a sensação deliciosa acabou me relaxando todos os músculos ( entre os quais o esfíncter) e caguei na calça ali mesmo.

- Que cheiro é esse? – deu um berro a Milena, olhando pra minha calça toda cagada.

- Cruz credo! Você se cagou todo! Não quero mais ir na sua casa! Seu nojento!

Nem me importei. Esqueci até do concurso. Fiquei parado ali, todo cagado, olhos fechados, com um sorriso bobo nos lábios, curtindo, ainda, a sensação do meu primeiro beijo de língua.

Daí, eu atribuir ao mestre Michael Jackson o fato de eu ter dado o meu primeiro beijo na boca, ainda quando garoto.

Por que? Você estava pensando o que?

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Ps> Michael, você é uma pessoa boa,cara! Vai pro céu e lá vai se encontrar com o menino Jesus...

Do fã

O Merda Fracassado

quinta-feira, 18 de junho de 2009

DEBUTANTE FRACASSADO



[ primeiro investimento no futuro do Merda]

Meu aniversário de quize anos. Coisa linda eu: púbere, inocente, pentelho ralo – sem serem grisalhos - na palma da mão, garoto prodígio terminando precocemente o ensino médio ( o que não foi porra de vantagem nenhuma, já que mantive esse mesmo nível de escolaridade pelos quinze anos seguintes).

Festa?

Apesar de já estar trabalhando [ ver ANIMADOR DE FESTA INFANTIL FRACASSADO], sem um cruzeiro ( a moeda da época) no bolso, miseravelmente resignei-me a passar essa minha data festiva enchendo a cara num botequim qualquer.

Até que sobreveio um fato surpreendente: minha madrinha endinheirada me ligou, de surpresa, perguntando o que eu queria de presente nesta data tão importante. O que eu quisesse nos meus quize anos. Propôs-me baile de debutante. Eu ri na cara dela achando que era sacanagem a tal proposta. Ela não gostou, estava falando sério. Perguntou novamente o que eu queria, o preço que fosse. Carro eu não podia ter. Pilotar a minha tão sonhada Harley Fat Boy eu não poderia devido à menoridade. Roupa eu não rasgava ( não me importava, melhor explicando) e não ia poder dar mole de rasgar essa grana fácil só por ser um miserável pequeno inútil sem ambição. Fiquei atarantado. Que porra de presente caro eu poderia pedir? Eu tinha que aproveitar a chance! Lembrei-me do cometa Harley que tinha acabado de passar no céu. Oportunidade igual aquela só depois de 86 anos. Ela, então, já de saco cheio, propôs uma viagem para a Disney. Eu me lembrei do recente trauma [ releia ANIMADOR DE FESTA INFANTIL FRACASSADO] envolvendo os personagens deste infame parque de diversões e recusei veementemente. Ela insistiu e disse que ia ser legal que eu passeasse nos States, que os filhos dela já tinham ido e que tinham adorado. Me lembrei apavorado do Bafo-de-Onça e recusei novamente. Ela, já puta com a minha falta de ambição, falou que ia me dar a grana correspondente ao preço da passagem, e eu que é decidisse o que ia fazer. Mencionou algo como “ será bom, pois você aprenderá a desenvolver responsabilidade para lidar com dinheiro desde novo”. E me deu a dinheirama.

Se eu fui pra Disney? Coitada da minha madrinha.

Peguei a bufunfa e gastei quase tudo comprando todas – eu disse TODAS – as camisas debochadas que vendiam nos periódicos Almanaque Casseta Popular e Planeta Diário ( eu tinha a coleção completa, até então das revistas). Mais de cento e vinte camisas “engraçadas”. Quem viveu nos anos oitenta, deve se lembrar de algumas frases estampadas nas camisas como: “Ê povinho Bunda”; “ Liberdade é passa a mão na bunda do Guarda”; “ Vá ao teatro mas não me chame”; “ Vote Macaco Tião”, entre outras dezenas de tosqueiras como essas. Eu me achava o máximo andando na rua com aquelas estampas bizarras. Sem um puto no bolso.

Ou melhor, ainda tinha sobrado uma graninha.

Desse restinho de money que sobrou, espertamente eu levei pra torrar no tão sonhado puteiro da minha cidade. A velha cafetina gostou de mim, me achou “fofinho”, e colocou uma piranhazinha da minha idade pra arrancar o meu cabaço ( “cabresto”, melhor dizendo). A inocente pitéuzinho fez o servicinho direitinho, inclusive me passando uma lindinha gonorréiazinha entre outras venéreas adolescentes doencinhas. Benzetacilzinho durante duas semaninhas. Meu piruzinho em carninha vivinha. Fiquei fudidinho.

Exatos vinte anos depois, minha madrinha me liga novamente no meu aniversário perguntando o que eu queria de presente. Como um cara maduro e responsável que já desenvolveu a responsabilidade para lidar com dinheiro desde novo, não titubeei em pedir o presente : uma viagem para a Disney !

Ps> [ ver TRABALHADOR CLANDESTINO NOS STATES FRACASSADO]

quarta-feira, 17 de junho de 2009

MASCARADO FRACASSADO



[ minha auto-máscara de mim mesmo]

Dezembro de 1992. Formatura do 2º grau ( hoje chamam de Ensino Médio). Como minha turma decidiu não fazer baile, convocaram todos para um festa a fantasia de uma faculdade de medicina da região, para aproveitar a ocasião. Nem seria necessário dizer que odeio festas, ainda mais dessas a fantasia. Eu não seria obrigado a ir, é lógico, mas nem sempre a lógica prevalece. Não iria e ponto final.

Até que o inesperado aconteceu: Samira, a gata mais linda da turma me aborda no meio da rua com sua doce voz diz:

- Cê vai no baile, não vai? Vai ter um prêmio de dois mil reais pra fantasia mais engraçada. Você, como é um cara criativo pra caramba, com certeza vai bolar uma fantasia maneirérrima e vai abocanhar essa! Uma fantasia engraçada e original. Te espero lá! Já tô na espectativa do que que ce vai aprontar. Tchauzinho. Te vejo lá!

“Tá me dando mole!”, pensei.

“Porra, e dois paus é uma grana do cacete!”

Até aí, tudo bem. O problema é que eu tava , como de costume, durinho da silva. Mais duro do que pau de galinheiro. Pau de galinheiro é sujo, né? Ahh, vale... Eu tava sujo também. Morando sozinho, sem grana nem pra pagar a lavadeira, meu trapos velhos fediam a mijo e suor. Como eu ia arrumar grana pra mandar confeccionar uma porra de uma fantasia? E o pior: uma fantasia “engraçada” deve custar mais caro ainda. Mas eu tinha que ir nessa merda. A gata ia estar lá me esperando. Ia valer a pena. E aturar aquela cambada de babacas fantasiados, se achando o máximo nas suas “fantasias engraçadíssimas”, só com muita birita no quengo. Nem pra isso eu tinha. Só uma garrafa de conhaque Presidente na prateleira de casa e a grana da entrada ( que valiam um mês do meu diário miojo, segundo as minhas contas). Porra, fui numa casa dessas que alugam fantasias para festas desse tipo e era uma baba pra alugar uma merda daquelas. Só merda manjada: Homem-aranha, Batman, Simpsom, Zorro e o ridículo do Chaves ( que tava até bem mais baratinho o aluguel). Quem ia ser o babaca que ia alugar uma porra daquela? Eu vestido de Chaves? Nem que me pagassem eu entraria numa merda de fantasia daquela. Nenhuma buceta ou grana valeria isso.

Mas eu tinha que ir. Tinha que ir fantasiado, agradar a mina e de quebra levar a grana. “Sou criativo”, pensei concordando com a gatinha.

No dia do esperado baile, à tarde, sentado na furada poltrona de casa e confabulando comigo mesmo, abri a minha carteira pra conferir quanto eu tinha de grana. Tinha importância exata da entrada, e uns centavos a mais e, até então, nenhuma porra de uma fantasia “engraçada e original”. Antes de fechar a carteira fiquei olhando pra minha identidade. Olhei pra foto da identidade. Lembrei rindo da “identidade secreta” do Super-homem que de secreta não tinha nada. lembrei de que quando eu era criança eu não entendia porque nos fimes do Super-homem ninguém suspeitava de que o Clark Kent era o Super-homem. Porra! Um era a cara do outro! Será que todo mundo de Metrópolis era retardado, ou sofria de catarata? Comecei a rir sozinho olhando pra minha identidade. Minha identidade secreta...

Eureka!

Minha fantasia! Original, barata e engraçada pra caralho! Descobri!
Corri pro centro da cidade, entrei na primeira xerox que vi e com os centavos que tinha mandei ampliar minha foto três por quatro da identidade até que ficasse do tamanho do meu rosto. Corri de volta pra casa eufórico.

Recortei a foto apliada do meu rosto, peguei um elástico fino que eu tinha e amarrei nas orelhas da máscara, fazendo dois furos nos olhos.

Já eram dez e vinte da noite. A festa estava marcada pras onze. Eu gastaria meia hora a pé, dava tempo. Abri o conhaque, tomei às talagadas.

Acabei com a garrafa toda em dez minutos.

Tava aqui a minha fantasia foda! Eu ia me fantasiar de mim mesmo! Coloco uma roupa minha, coloco a máscara e eu tava fantasiado de mim mesmo. Genial! Comecei a rir. Rir pra caralho, sozinho olhando no espelho pra mascara com a foto tamanho natural do meu rosto, me achando engraçado, criativo, original. Eu era foda!

Bêbado pra caralho, cambaleando e tomando cuidado pra não rasgar a máscara, cheguei na portaria da festa.

Batmans, Robins, Homens-aranha, uma porrada de Bart Simpsons, de personagens de desenhos animados, todos entrando. Eu, bebaço, olhando praquela merda toda tinha certeza de que ia faturar. A minha era a mais original, criativa, engraçada.Eu ia faturar essa.... Até que o cara da portaria:

- Não pode entrar!

- Como assim não pode entrar? – bradei a plenos pulmões cheios de fumaça de cigarro e de estômago cheio de conhaque.

- Só pode entrar fantasiado!

- Porra! Caralho! – abaixei a máscara – Aqui ó! Fantasia do caralho! eu fantasiado de eu mesmo! Muito foda! Olha só: minha calça, minha camisa, meu tênis, minha cueca, minha meia. Eu mesmo que tive a idéia. Ninguém teve! Foda a fantasia!


- Só pode entrar fantasiado!

- Qual é mermão? Não tá acreditando que eu não sou eu mesmo? Daqui, daqui uma olhada na minha identidade, olha só. Só eu! A fantasia!

- Só pode entrar fantasiado!

- Porra seu crioulo de merda analfabeto! Não tá vendo que a porra da minha fantasia é do caralho? A fantasia mais engraçada do mundo? Seu num tá entendendo, porra? Energúmeno!

Tomei um murro que pegou certeiro no nariz da máscara ( e no meu, é lógico!). Cai de quatro, nariz pingando sangue, tonteira e vertigem da mistura do excesso de conhaque com o murro, comecei a vomitar. Olhei pro chão e vi a máscara rasgada e suja de sangue e vômito. Nariz pingando sangue e chorando como uma criança fui apoiando nas paredes da rua pra casa.

No dia seguinte eu soube que o Odil, o babaca da turma, tinha ganhado o prêmio de fantasia mais original e engraçada. E tinha ficado com a Samira. Foi fantasiado de Chaves.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

INFLUENCIADOR DA BANDA SEPULTURA FRACASSADO



[ tinha até capinha a fita-demo da fracassada banda]

Junho de 1989



Na década de oitenta estava no auge decorar a letra de Faroeste Caboclo. Eu odiava Legião Urbana. Pior: eu abominava aqueles moleques e aquelas meninas da minha escola, gente descolada, que ficavam minutos intermináveis cantando aquela merda daquela letra na sala de aula.

Tive, então, uma idéia: montar uma banda semi-cover e fazer uma letra parodiando essa porcaria.

O nome do tal grupo seria Legião Umbanda. Tentei reunir uma galera, mas depois de dois ensaios neguinho sartou de banda alegando medo de mexer com coisas desconhecidas, e que certamente uma legião de espíritos iria nos atormentar pela blasfêmia religiosa.

Crisão , Léo Murunga e Shaolin, se estão me lendo agora: cambada de frouxos!

Os pseudônimos dos membros da Legião Umbanda seriam:

Rezá tá Ruço - eu ( vocalista, filho de Oxossi, afetado, egocêntrico, que recusava-se a rezar pro seu santo e, entre seus acessos brabos de egotrip, autodenominando-se ele próprio um santo, rezava e colocava um despacho para si mesmo no palco);

Dadá do Villa Lobos - Léo Murunga ( guitarrista médium que sempre que subiria no palco evocando o espírito de Villa Lobos. O brasileiro compositor erudito, puto pra cacete por ter seu sossego no além interrompido, baixava, como exigido, no corpo do rapaz ( cavalo: na terminologia do candoblé), mas só de sacanagem faria ele compor na guitarra melodias deprês e chatas pra caralho);

Roberto Bomfim “ ô Maínha” – Crisão ( baterista , filho de Yansã, que sempre no final dos shows desceria do palco e encheria o saco da platéia tentando vender aquelas malditas fitinhas de pulso do Nosso Senhor do Bomfim, repetindo: “compraê ô maínha”, “compraê ô maínha” );

Negrinho Pererê - Shaolin ( baixista que logo seria expulso da banda, num ato claro de discriminação pelos demais integrantes, só por ser preto e incorporar o saci-pererê, tendo que tocar baixo pulando de uma perna só).

Logo em seguida ( agosto de 1989), por conta da cagação de medo da galera, tive que desistir da idéia.

Qual foi a minha surpresa quando, no ano seguinte, 1990, através de um fanzine carioca, underground pra caralho, eu soube de uma nova banda de rock pesado que tratava desses temas afro-religiosos: Gangrena Gasosa.

A Gangrena Gasosa acabou fazendo um sucesso do caralho ( foi até no Jô Soares) pelo Brasil e o mundo afora, e é considerada até hoje como precursora no gênero e até de ter influenciado a fase afro-tambores do grande Sepultura.

Preciso dizer mais? Me fudi!

Só pode ser mandinga do Crisão , do Léo Murunga ou do Shaolin ( que hoje, vinte anos depois, é pastor evangélico).

Um fragmento da canção carro-chefe do meu fracassado grupo Legião Umbanda:

( não parodiei a letra toda porque ia ser uma porra de uma letra quilométrica pra caralho como a original, e acabar enchendo o saco da mesma maneira)

Para este Caboclo


Não tinha medo o tal Tião do Jesus Cristo
Era o que todos diziam quando ele se converteu
Deixou pra trás toda sua crença na Igreja
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Exu lhe deu

Quando criança só pensava em comer doce
Dado em Cosme & Damião do Centro de um tio seu
Adolescente todo ebó ele chutava, Zé Pelintra incorporava
Converteu-se pra Ateu

Ia pra igreja e achava que tava num terreiro
gargalhava num berreiro pras velinhas do altar
Comprou uma capa e um sinistro de um tridente
Foi prum centro de quimbanda e Exu queria incorporar

Ele queria sair para ver o mar
num sonho ele teve uma grande visão
Pra Pomba-gira iria oferendar
uma garrafa de marafo e um charutão

( e por aí vai...)

terça-feira, 12 de maio de 2009

A INFÂNCIA DO MERDA ( O FUTURO FRACASSADO)



[março de 1983 - aos sete anos e oito meses de idade ]


Um merda na infância sofre. Pra mim foi um período confuso e conflituoso. Traumático.Crise de identidade é coisa de adolescente, sabemos disso. Mas eu sofri desse mal na infância. Eu achava que meu nome era Merda.

Isso mesmo: Merda.

Por quê? Porque toda vez (... quase todo o tempo) que eu tava fazendo alguma brincadeira sinistra, perigosa, como subir em cima da estante, tacar fogo na toalha de mesa, brincar com objetos pontiagudos, minha mãe gritava:

- Merda! Desce dessa estante!

- Tira esse saco plástico da cabeça do gato!

- Merda!

- De novo? Mas que...Merda! Quantas vezes eu te falei pra não ficar pulando de uma poltrona para a outra?

Eu pensava: meu nome só poderia ser Merda.E meu irmão mais novo, tão bagunceiro quanto, eu acha que se chamava Meu Deus.

- Meu Deus! Para de correr assim na cozinha que você ainda me derruba uma panela quente!

- Ai Meu Deus! Tira o dedo da tomada!

Meu irmão, apesar de ser três anos mais novo do que eu, era bem melhor na porrada. Sempre quando a gente saía na pancadaria ele levava vantagem.

Uma vez meu irmão estava me enchendo de pancada, eu deitado de costas e ele por cima, sentado na minha barriga, espancando meu nariz, eu apanhando como um condenado, quando minha mãe deparou-se com a briga e foi logo dando esporro:

- Meerrrdaaa! Para com isso!

- Mas mãe - ainda embaixo de socos consegui responder - não tá vendo que quem tá batendo é o Meu Deus?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ANIMADOR DE FESTA INFANTIL FRACASSADO

Dezembro de 1988 – 13 anos e seis meses de idade


Consegui meutão sonhado primeiro emprego! Minha tia me dissera que eu deveria apresentar-me às sete horas da manhã, numa sexta feira, em um determinado endereço para fazer um teste para animador de festa infantil.

Ansioso e esperançoso não dormi na noite anterior. Passei a noite acordado pensando em como eu deveria proceder para conseguir a vaga. Fui pregar o olho lá pras quatro e meia da manhã e, por conta disso, acabei não acordando com o despertador às seis horas. Dormi direto e acordei às nove. Olhei para o relógio e num susto pulei da cama, vesti a roupa de qualquer maneira e sem nem ao menos tomar café da manhã, parti à pé, numa correria danada em direção ao endereço em que estava marcado meu teste às sete horas. Cheguei lá mais ou menos nove e meia, todo suado, bufando, morrendo de fome e sede.

Entrei em uma saleta onde uma secretária, sem nem olhar pra mim, de cabeça baixa, lendo uma revista, foii logo dizendo, numa voz esganiçada, antes que eu conseguisse balbuciar alguma coisa:

- Teste pra animador infantil, galpão oito. Se ainda der tempo de você se apresentar....

E, de olho na revista, ainda completou:

- Passa na segunda sala à direita e vê se ainda tem alguma fantasia lá. Atrasadinho. Se tiver, já vista de uma vez pra adiantar o seu lado.

Olhei na tal salinha, havia em um canto apenas uma roupa meio brilhosa com algo que parecia uma cabeça gigante. Sem pensar duas vezes peguei a roupa e a cabeçona e vi que era da Magali da turma da Mônica. Tirei minha roupa, fiquei só de cuecas e tênis e vesti a tal fantasia. A maldita fantasia devia ser uns dois números a menos que o meu. Espremi, contorci e consegui à muito custo entrar dentro. Vesti o cabeção da Magali, uma espécie de cabeção de boneca gigante, oca, com um buraco embaixo do queixo pra que se encaixe a cabeça lá dentro. Não havia um suporte que impedisse que o cabeção, depois de encaixado, ficasse solto, balançando pra frente e pra trás. O único suporte era que o queixo e a nuca do cabeção ficavam presos no meu ombro. Para enxergar fora do cabeção, eu tinha que olhar pelo único orifício, com uma telinha branca, que era a boca do cabeção da Magali. Enxergava-se pouquíssimo, respirava-se menos ainda. Já totalmente vestido e com o cabeção encaixado, fui às pressas em direção ao tal galpão oito, não conseguindo ver quase nada, apalpando as paredes e tendo que encostar o dente da Magali ( que era por onde eu mal e porcamente enxergava) na porta de todos os galpões para conseguir ver os números.

Em frente ao galpão cinco, minha perna começou a tremer. Como o uniforme estava muito pequeno, a costura que passava pelo meio da fantasia acabou espremendo meus testículos e dividindo-o visivelmente em dois. A dor era insuportável, comecei a sentir uma câimbra na perna esquerda e um formigamento no pé esquerdo. Já estava quase desmaiando de tão abafado que estava para respirar dentro do cabeção. Tentava abaixar o queixo e puxar ar fresco do buraco que eu havia encaixado a cabeça, que era o papo e o queixo da gigantesca cabeça, mas não conseguia porque havia uma merda de um arame que fincava na minha bochecha e me impedia de fazer o movimento. Minha visão já estava turva, a dor no saco era insuportável, a perna esquerda repuxava cada vez mais, mas eu com muito esforço e determinação consegui chegar ao tal galpão oito. Empurrei-o e entrei em um pátio todo decorado com motivos infantis, balões aos montes, desenhos , muitas cores.

No centro do galpão, havia 23 animadores infantis já fantasiados como eu. Só que numa olhada rápida percebi que o único da turma da Mônica era eu. Tava lá toda a Disney. E pior: só personagens masculinos. Todos, que estavam voltados em direção ao centro de um círculo que haviam feito, ouvindo instruções de uma senhora ( a única que não estava fantasiada) viraram em minha direção, ao mesmo tempo.
“To fudida”, pensei eu. Magali, sozinha nesse inferno da Disney

A tal senhora saiu de dentro do círculo e furiosa veio em minha direção já dando esporro:

- Sua incompetente! Sabe a quanto tempo você está atrasada?

Porra, a coroa vendo-me em uma fantasia de Magali achara que eu era menina. Eu tentei explicar o atraso e que eu não era menina e minha voz não saía de dentro do cabeção, ficava abafada. Eu tentei com toda a força tirá-lo mas não conseguia, o arame fincava com muita força na minha boca e bochecha e pensei:

- Ahh! Deixa pra lá! Depois eu explico que não sou menina e porque me atrasei!

A tal senhora, depois que gritou comigo, virou as costas voltando em direção ao centro da roda ainda berrando:

- Ô sua imbecil! Vem pra cá pra ver se ainda dá tempo de você pegar a última explicação!

Fui mancado ( minha perna e meu saco ainda latejavam pra cacete!) em direção à borda do círculo de personagens da Disney para ouvir as preciosas instruções da experiente senhora. Havia um espacinho entre o Bafo de Onça e um Irmão Metralha. Quando eles perceberam minha aproximação, encostaram-se um no outro impedindo-me de conseguir aquele espaço.
Saí dali e andei, puxando de uma perna, em volta do círculo para achar uma brecha pra conseguir ver a instrutora. Percebi que todos estavam de conluio contra mim. Cutucavam-se uns aos outros, rindo ( eu percebia pelos seus ombros sacudindo) de alguma coisa em mim que eu não sabia o que era. Já haviam passado uns cinco minutos e eu não conseguia nem chegar na beira da roda e nem, ao menos, conseguir ouvir nada, até que que a instrutora berrou lá de dentro:

- Cadê a vaca da Magali ? Onde está aquela retardada?

Alguém pegou no meu ombro ( acho que foi o Tio Patinhas) e me jogou no centro da roda, caí de cara ( ou de cabeção) no chão. Todos me olharam gritando jocosidades:

- Magali sua vagabunda maconheira! Vive na larica!

- Magali. Magali. Cai de boca e morde aqui!

Gritavam em coro segurando seus genitais, até que a instrutora botou ordem:

- Silencio seus bostas! Virou zona essa porra?

Olhando pra mim com raiva:

-Levanta ô vagabundinha!

Levantei-me com muito custo. Depois do tombo, meu testículo esquerdo latejou mais forte ainda.

- Agora repita o que eu fizer!

E começou a fazer uma dança esquisita que resumia-se em dar tchauzinho com as duas mãos, rebolar e balançar a cabeça pra direita e pra esquerda. Parando de repente, apontou o dedo pra mim:

- Entendeu debilóide? Dança – tchauzinho – balança a cabeça !

“Dança – tchauzinho – balança a cabeça”, memorizei. E fiz. “Dança – tchauzinho – balança a cabeça”.

E a instrutora esgoelando:

- Todo mundo! Dança – tchauzinho – balança a cabeça!

E todos puseram-se a fazer a coreografia.

Já estava puto com aquela merda toda: falta de ar, não escutava e nem enxergava quase nada, não conseguiam ouvir o que eu dizia, câimbra na perna, formigamento no pé, testículo latejando pra caralho, Tio Patinhas me sacaneando. Dança – tchauzinho – balança a cabeça

O incrível é que, antes dessa experiência , eu nunca imaginara que por debaixo daquelas toscas e gigantes máscaras que atores de personagens infantis usam há um ódio e um desespero incontido que contrastam com o que vemos no exterior: um ingênuo personagem sorridente ( sim, todos os cabeções, sem exceção ostentam uma gargalhada estática) e brincalhão que dá felizes tchauzinhos e pulinhos para as crianças. Ninguém imagina o rancor que há por dentro daquela aparente felicidade.

A coreografia bizarra, que podia ser entendida numa só tentativa, ficou sendo repetida durante uns quarenta minutos.
Eu já não agüentava mais. O Bafo de Onça continuou me sacaneando.O Pato donald tava do lado dele e ria pra cacete ( o cara que tava dentro da fantasia ainda ficava imitando aquela risada de pato estranhíssima). O Huguinho e o Zezinho eram imparciais: não sacaneavam mas também não me defendiam, parecia que tinham medo do Bafo de Onça. Enquanto participávamos de uma dinâmica de grupo em que tínhamos que ficar andando em fileira, dançando uma música imaginária sem para o dança – tchauzinho – balança a cabeça, o bafo de Onça implicou de vez comigo: chutava meu calcanhar para eu tropeçar, dava soco na minha cabeça ( da Magali) até que passou a mão na minha bunda. Perdi a linha! Virei pra trás pra mandar uma porrada quanto percebi que ele havia sumido.

Olhei para os lados e não o achei o filho-da-puta. Perguntava, perguntava e ninguém me dava atenção. Eu tava sozinho, e pior, toda a banda podre tava contra mim: percebi que Os Metralhas puxavam o maior saco do Bafo. A galera casca grossa tava mancomunada e a vítima era eu. Eu tinha que ficar esperto. Naquela de andar em trenzinho pelo salão, todos no dança - tchauzinho – balança a cabeça, eu passei perto de uma mesa velha que estava com umas decorações infantis em cima e lasquei um pedaço de madeira. Ficou uma lasca pontiaguda e cheia de farpas. Escondi dentro da luva e continuei procurando o meu inimigo pelo salão. Agora ele vai se fuder, pensei.
Calor ! A câimbra na perna esquerda aumentava. Dificuldade pra andar. Mas minha determinação de vingança era o que me motivava. Até que o avistei. O sangue me subiu à cabeça. Eu não enxergava mais nada, minha sede de vingança e meu coração cheio de ódio só me faziam pensar em fincar aquele punhal de madeira podre no barrigão do Bafo. Fui andando rápido em sua direção até que a instrutora com um apito na boca soprou um estridente sinal e desviou a minha atenção. Todos pararam com o dança - tchauzinho – balança a cabeça - e viraram-se para ela.:


- Eu não quis avisar antes, mas na verdade vocês já começam hoje! Estão todos contratados! Esse galpão em que nós estamos é na verdade um salão de festas infantis e já está quase na hora da festinha de cinco anos do filho do excelentíssimo Prefeito da nossa cidade.

Todos urraram de felicidade. Eu, vendo-me nessa nova situação, deixei minha vingança pra depois.

Começou a chegar as crianças. Uma porrada de pirralhos barulhentos de uns cinco, seis anos de idade. Corriam em nossa direção. Criança pra cacete.Eu, precisando do emprego, dava o máximo de mim: dança - tchauzinho – balança a cabeça sem parar. A instrutora me olhando. Eu apavorado de dor, mas habilmente demonstrado pela expressão corporal a maior felicidade do mundo. Por dentro ódio, calor, câimbra, desejo de vingança, saco espremido, rancor, dor-de-cabeça. Eu, defintivamente, era uma ator, pensei. As crianças pulando à minha volta.

Até que deu-se um silêncio total na festa. A instrutora que era mestre-de-cerimônias da festança, anunciou a entrada do aniversariante, filho do excelentíssimo Prefeito ( a puxa-saco fez questão de frisar).

O molequinho pulou do colo do pai e, pro meu desespero, veio correndo em minha direção gargalhando, feliz com a minha presença:

- Magali! Magali!

Antes que ele chegasse a mim a instrutora, apreensiva, disse perto do meu ouvido:

- Cuidado com o garoto! Vê lá o que você vai fazer sua merdinha!

O menino parou esbaforido de êxtase na minha frente, eu sua heroína dos quadrinhos, eu num súbito ficou em silêncio , todos do salão olharam pra mim e pro garoto. A instrutora, a turma da Disney, o excelentíssimo prefeito, todas as crianças, olharam curiosos para o pequeno aniversariante. Fiquei nervoso. Silêncio sepulcral, até que o garoto começando a chorar compulsivamente grita a todos pulmões:

- A Magali tem saco!

E deu uma pancada com as duas mãos bem no meio da linha que estava dividindo dolorosamente meus testículos.

Uma dor insuportável me fez dar um urro e agachar de desespero.O desgraçado do Bafo de Onça, só pra me fuder me empurrou pra frente,fui catando cavado aos tropeções, perdi a força na perna da cãimba, cai de lado fraturando o ombro direito, tonto, falta de ar, comecei a chorar, veio uma porra de um moleque grande pra caralho, já de uns oito anos e deu um bicudaço na minha costela : Magali travesti tem saco, gritou o molecão.

Deitado no chão, todo dolorido, consegui ver a instrutora que olhava-me com ar de reprovação disfarçadamente mandando eu levantar e dar os malditos tchauzinhos. Eu precisava do trampo. Era meu primeiro emprego, motivo de orgulho. Juntei todas as minhas forças, levantei.

De pé, tal como um titã , obstinado a superar esses obstáculos, reestabeleci-me recomecei a dar os caralhos dos tchauzinhos, mantive-me firme. Lembrei : e comecei a fazer o “dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá”. O filho do excelentíssimo Prefeito distraiu-se com outra coisa e parou de chorar, sumiu da minha frente.



Apesar da tonteira , do calor e da dor-de-cabeça consegui manter durante uns quinze minutos o mantra “dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá”, até que começou o meu verdadeiro inferno. O filho-da-puta do Bafo de Onça que tava a fim de me ferrar mesmo, tava tendo alguma uma idéia maligna pra caralho contra mim: foi em direção ao tal gigante de oito anos que tinha me chutado quando eu estava caído e cochichou alguma coisa no ouvido do capetinha.


Eu acabei distraindo-me com o ardil do Bafo e, por um segundo, esqueci o maldito “ dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá” .Só senti um beliscão fudido na costela dado pela instrutora que falou baixinho mas assustadoramente perto do meu cabeção de Magali

- Sua vadia, você parou com a coreografia e a filhinha do Seu Arthur, vereador - de apenas 4 aninhos, que é a maior fã da Magali tá chorando pra caralho!! Vai lá e agrada ela!

- Sim senhora, senhora instrutora, desculpe, vou lá, respondi resignadamente.

Vi a menininha e fui sua direção, “ dança – tchauzinho – balança a cabeça pra-lá-e- pra- cá” , a menininha me vendo parou de chorar. Olhei rapidamente pra instrutora, e vi que com um “sim” com a cabeça, finalmente aprovava-me. De tão envolvido com a situação acabei esquecendo-me da trama do Bafo com o demônio de oito anos quando de repente ouvi um grito estridente, infernal, virei pra trás e dei de cara com ELE, o anticristo, o satanás de 6 anos esgoelando: “OLHA O SACO DA MAGALI ! TÁ TODO PRUM LADO SÓ ! e deu uma porrada gigantesca com taco de beiseball que pegou as duas bolas de uma vez. Uma dor lancinante ! Comecei a arriar, e antes de cair no chão desmaiado de dor, percebi de soslaio pela gradinha embaçada do cabeção da Magali a gargalhada fúnebre do Bafo de Onça.