fracassos

  • Vendedor de sacolé fracassado, ajudante de pedreiro fracassado, jogador de futebol fracassado, animador de festa infantil fracassado , paranormal fracassado ,oficce boy fracassado , autor de revista em quadrinhos fracassado ,auxiliar de eletricista fracassado, letrista de rock fracassado, auxiliar administrativo fracassado, adolescente rebelde fracassado, produtor musical fracassado, cantor fracassado, diretor de filmes fracassado, rapper fracassado, punk da periferia fracassado, autor de livro infantil fracassado, mochileiro fracassado, ator fracassado, fanzineiro fracassado ,dono de sebo de livros usados fracassado ,funkeiro fracassado, produtor de funk fracassado, produtor de rock fracassado, rocker psychobilly fracassado, metaleiro headbanger fracassado, pagodeiro romântico fracassado, skynhead neonazista fracassado, playboy fracassado, satanista adorador do diabo fracassado, jornalista gonzo fracassado, maconheiro fracassado , pervertido sadomasoquista fracassado, alcoólatra fracassado, hippie fracassado, stend up comedy fracassado, barman fracassado, músico fracassado , dono de bar fracassado, empresário rastaman fracassado, católico fracassado, kardecista fracassado, umbandista fracassado, budista fracassado, maçon frasassado, rosa cruz fracassado, seicho-no-iê fracassado, evangélico neo-pentecostal fracassado, ateu fracassado, trabalhador clandestino nos estado unidos fracassado, simpatizante gls fracassado, artista plástico fracassado, letrista de forró fracassado, forrozeiro fracassado, operário de manutenção de linha férrea fracassado, seresteiro fracassado, lutador de mway tay fracassado, metalúrgico fracassado, vendedor de cd pirata fracassado, candidato a vereador fracassado, redator publicitário fracassado, promoter de festas rave fracassado, cartunista fracassado, cartunista outsider fracassado, dono de site fracassado, cineasta documentarista fracassado, blogueiro fracassado, dono de comunidade no orkut fracassado, acadêmico fracassado, fotógrafo fracassado, cordelista fracassado, metrossexual fracassado, intelectual de direita fracassado, intelectual de esquerda fracassado, ateu fracassado, vendedor da herba life fracassado, vendedor da anyway fracassado, vendedor do baú da felicidade fracassado, participante de pirâmide de enquecimento fracassado, dono de vídeo-locadora fracassado, jipeiro off road fracassado, pesquisador científico fracassado, ufólogo fracassado, roteirista de tv fracassado ...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

DONO DE GRIFE FRACASSADO

Vendo que o mundo fashion tava infestado de frescos e metrossexuais, tentei criar uma grife que atendesse somente ao público casca-grossa, neguinho que não esquentasse a cabeça pra firulagem, só pra camarada que não se intimidasse em escarrar no chão no meio da rua ou coçar o saco dentro da igreja.

A grife ( que até bolei umas estampas simpáticas - que seguem abaixo) se chamaria ESCRACHO - ROUPA PRA MACHO!

Ia ser uma inovação no mundo da moda. As camisetas t-shirts, além das estampas shocks-de-monstro, vinham com um tecido-toalha nas mangas, pro brother limpar o suor da testa e algumas já vinham sujas de graxa e cimento pra facilitar na desculpa pra reutilizar a camisa futuramente sem ter que lavar de novo.

Algumas já viriam com cheiro azedo de suor e cerveja velha.

Mas como tudo que é bom não é bem compreendido por estas plagas, a grife não colou muito.

Além do que, pedreiro, mecânico e caminhoneiro é uma raça duranga pra cacete.

[ ainda tenho algumas no estoque, se alguém se interessar, encomende pelo meu e-mail ]





















JORNALISTA FRACASSADO

Meti na cabeça que ia ser jornalista investigativo e, em fevereiro de 2005, totalmente desempregado, a fim de tentar uma vaga em algum dos jornais que circulam na minha cidade, por conta própria, investiguei sobre uma gangue que havia tocado o horror em Barra do Piraí na década de oitenta. Gangue que realmente existiu quando eu ainda era moleque. Lendo alguns livros sobre técnicas de entrevista, fiz algumas com ex-membros e vítimas dessa gangue e montei, na cara de pau, uma fictícia resenha de uma jornalista carioca a respeito de um suposto livro investigativo que eu escreveria sobre essa gangue, que sairia em breve. Mandei a tal resenha pra todos os jornais da cidade. Além do NÃO de todos como resposta ainda tive que varrer a parada toda pra debaixo do tapete porque, segundo alguns, tinha gente na cidade que não iria gostar de saber sobre o que eu pretenderia escrever.

Sartei de banda. Deixei essa merda pra lá.

A ( fictícia) resenha do ( fictício) livro, com os ( reais) depoimentos:

A Clockwork Orange sul-fluminense

12/12/2004

por Iolanda Greyck ( da sucursal)


Em 1985, na novela Ti Ti Ti ( aquela dos costureiros Victor Valentin e Jacques Léclair) a personagem Eduarda ( Betty Gofman) vira punk / dark e entra para uma gangue, a Turma da Lazinha. Nessa gangue todo mundo era meio punk, meio dark e ninguém tomava banho.

Uma inocente e pueril novela da Rede Globo.

Enquanto isso, um grupo de rapazes, autodenominados também de “Turma da Lazinha” , saía às ruas da pacata cidade de Barra do Piraí, interior do Estado do Rio de Janeiro, com um único propósito: arrumar briga.

Pancadarias, linchamentos, fichas na polícia, prisões, hospitalizações e até mortes marcaram as ações dessa gangue nada global e inocente.

Quem é morador dessa cidadezinha e tem hoje, passados mais de 20 anos, idade acima de 50, 55 anos vai, provavelmente, dizer;

“Nunca houve uma gangue aqui assim! Como é que aconteceu na minha cidade e eu não fiquei sabendo?”

Ledo engano!

A temível Turma da Lazinha existiu sim e aterrorizou quem na época tinha idade entre 15 e 25 anos: a garotada que saía da escola, os freqüentadores do Waldo Dicotheque, do bar calçadão, do extinto Cine Brasília.

De posse dessas preciosas informações, o escritor Alexandre Coimbra passou três meses nesta cidade com o propósito de investigar minunciosamente as ações desse nefasto grupo. Foram colhidos vários depoimentos dos envolvidos, recortes de jornal da época e entrevistas com os parentes dos, então, delinqüentes. Todas essas informações acabaram dando origem ao livro “LAZINHA:QUANDO A BARRA ERA PESADA – histórias de violência e pancadaria de uma gangue que aterrorizou a pacata cidade de Barra do Piraí nos anos 80”.

Ao ler o original do livro ( que está no prelo) , bastante investigatvo e impactante, fiquei imediatamente estarrecida com o poder brutal dessa gangue. Alexandre Coimbra nos deixa tensos durante toda a leitura, com gosto de sangue na boca, onde as porradas no nosso estômago são certeiras.

Relatos de policiais civis e militares envolvidos, registros na polícia, registros nos hospitais, recortes de jornais da época, entrevistas com os ex-membros da gangue e com os pais e mães dos delinqüentes, costurados pela escrita fluida e intensa do autor, resultam num primoroso livro, onde a investigação sobre a violência juvenil é o mote principal.

Alguns depoimentos, como os de “Toninho”, ex-membro de uma gangue rival, a “Turma do Chalet”, nos faz ter idéia do tom do livro:

“ O bicho pegava mermão! Nessa época bicho pegava feio! Só tô vivo hoje, com meus 42 anos, porque dei sorte quando a Lazinha me pegou de porrada. Me detonaram de cacete mas acharam que eu tava morto e me deixaram caído estatelado no chão. Tomei chute de botina de biqueira de aço na cara, chute no saco, paulada na costela, jogavam cachaça nas feridas que iam abrindo no meu rosto e doía mais ainda.Tive meu pé esquerdo quebrado por um paralelepípedo jogado de quina no meu tornozelo. Fiquei detonado. To aleijado até hoje. Os caras eram cruéis. Cruéis mesmo. Quem tivesse no caminho deles ia se dar mal, como eu me dei.”

“Russo”, no capítulo “Vítimas do Ódio”, relata que:

“ Porra! Os caras baixavam o pau a troco de nada! Apanhei, só porque eu tinha uma namorada no bairro que eles se reuniam. Numa noite, vindo da casa dela, dei de cara com a galera da Lazinha. Dei mole. Ao invés de dar meia volta, continuei andando na direção deles e , naquela de não querer botar a viola no saco, entrei numa de bater boca e, ironia do trocadilho, bateram muito, muito mesmo, na minha boca. Socaram uma barra de ferro bem no meio dos meus dentes. Quebrou todos os da frente na hora. E continuaram batendo: pisão na cabeça, pontapé na costela e o caralho. Me viraram do avesso.”

No capítulo “Iniciação”, o ex-membro e um dos fundadores da Lazinha, Sérgio ( nome fictício), hoje um respeitado pai de família de 44 anos, dá em mínimos detalhes preciosas informações sobre o ritual de iniciação aos que quisessem, na época, entrar para a gangue:

“ Não era mole não. Tinha que ter disposição pra passar no teste de iniciação e ser aceito na Lazinha. Assim que o camarada se apresentava dizendo que queria participar do grupo a gente o levava pro QG e começava o que a gente chamava de “A sabatina”. A gente metia no talo um Black Sabbath no toca-fitas, pra abafar os gritos, e tocava a porrada no calouro: surra de toalha molhada, telefone, corredor polonês, afogamento, cigarro aceso na língua, e, com a língua queimada de cigarro, o camarada tinha que limpar os nossos pisantes, A gente escarrava, aquele escarro verde fedorento no nosso tênis e o calouro tinha que lamber tênis por tênis sujo de bosta de cachorro, catarro e lama. Se passasse por isso, tava no grupo.
Motivo? A gente não tinha motivo nenhum. Era a porrada pela porrada. A gente também não tinha fins lucrativos nenhum, não éramos racistas nem anti-racistas, éramos democráticos: baixávamos a porrada em todo mundo, sem distinção de credo, cor, classe social ou partido político. Nossa idéia era botar moral mesmo. Sermos respeitados pela região. E éramos. Nós contabilizamos, na época, que cada um de nós comia mais ou menos umas dez mulheres diferentes por semana. As menininhas ficavam em cima. Era status ser comida por um de nós. E comíamos, é claro. Às vezes umas mais doidas entravam numa de serem comidas por todos. E a gente topava. Se tinha consentimento, a gente topava. Porque estupro nunca rolou não. E essas minas mais ninfomaníacas saíam de lá toda arregaçada e felizes da vida com mais de vinte pirus passados pela buceta e pelo cu. Coisa de doido, né? De doida, melhor dizendo.”

No depoimento de outro ex-membro, o Tuca ( nome fictício), a relação da gangue com as drogas é descrita em detalhes:

“ Não tinha esse lance de droga pesada não. Só um bagulhinho e uma brizolinha de vez em quando. Ahh.. Brizola era o nome que se dava na época pra cocaína. Tinham uns que cheiravam lança perfume e loló, mas não era a minha não, me dava uma puta dor de cabeça. Birita a rapaziava biritava direto, era cinco, dez litros de pinga numa noite só. A gente bebia e saía pra night pra tocar horror. E treta com a polícia rolou algumas vezes, mas nada sério não. Se eu te falar que tinha até meganha na Lazinha, cê não ia acreditar. Na boa. Policial que, nas horas vagas, gostava de uma diversão. Tinha neguinho de tudo quanto era idade e classe social: crioulo do morro misturado com playboy que se misturava com moleque adolescente e com a galera mais cascuda de 25, trinta anos, com trabalhador. Mistureba geral. E doideira geral. E porrada geral.(...)”

Quer saber mais ? bateu uma fome de conhecer o livro? Semana que vem já está nas livrarias o magnífico livro “Lazinha: quando a barra era pesada – histórias de violência e pancadaria de uma gangue que aterrorizou a pacata cidade de Barra do Piraí nos anos 80.”

Tem que ter estômago e estômago forte, permanentemente embrulhado pelas minunciosas histórias de extrema violência, nessa espécie de Laranja Mecânica Tupiniquim.


CANDIDATO A VEREADOR FRACASSADO


Milhares de santinhos impressos sem poder distribuí-los. Grana jogada fora.
Em 2004, quis candidatar-me a uma vaga de vereador na minha cidade e tive dificuldades para conseguir levar o projeto adiante. Criei um nome bem impactante para usar na campanha, e já tinha até o slogan:

Fernandes Honesto

Minha proposta de governo:

Como Fernandes exercerá seu mandato :-
“No dia da minha posse, jurarei descumprir a Constituição Federal, a Constituição Estadual e a Lei Orgânica Municipal (a Lei Maior do Município), não observar as leis, não desempenhar o mandato e trabalhar pelo regresso do Município e o mal estar do povo . ”

Função Legislativa - “Elaborarei leis esdrúxulas e desnecessárias , votarei sem analisar os projetos de lei enviados pelo prefeito. Proporei projetos que impliquem em criação de novas despesas para o município, facilitando o desvio de verbas. Não participarei das votações e discussões em plenário - onde são travados os grandes debates -, nem me posicionarei politicamente, fugindo de pronunciamentos. Serei tão ordinário que nunca participarei de sessões Ordinárias nem Extraordinárias.

Função Fiscalizadora – “Não fiscalizarei e nem controlarei os atos do Executivo (prefeitos e secretários municipais). Ao julgar as contas do prefeito; não encaminharei nenhum pedido de informação sobre a administração municipal ,quando alguma ação do prefeito não tiver sido devidamente divulgada. Em caso de suspeitas de irregularidades não criarei Comissões de Inquéritos para apuração dos fatos ,em troca de favores com o prefeito. Sairei de sintonia com seus Dirigentes, Lideranças e Correligionários do meu partido, faltarei à Reuniões de bancada, de diretório e mesmo de discussão de estratégias.Contrariarei o regimento interno. Participarei de todas as negociatas. Sabem o que é negociata ? É todo bom negócio para o qual ainda não fomos convidados.

Função Judiciária – “Ao exercer a função judiciária num eventual processo ao prefeito e os secretários, farei vista grossa, omitindo, burlando e falsificando informações para assim inverter a situação, tornando-o um mártir injustiçado.Ao perguntarem-me sobre as Moções ( Proposição Legislativa pelo qual o Vereador expressa seu Reconhecimento, Congratulação, Louvor, Pesar ou Repúdio). Direi que moção pra mim é “Moça Grande”. E fim de papo !

Função de Assessoramento - “As medidas de interesse público que a mim forem designadas para encaminhamento ao prefeito, como; obras , construção ou reformas de ruas, limpeza de vias públicas, melhorias dos serviços de saúde, serão cuidadosamente jogadas na lata de lixo, sendo substituídas por outras , que , mesmo não sendo de interesse público, serão somente do meu interesse .Serei o elo partido entre o Governo e o Povo. As minhas Cartas Abertas (informar sobre os Atos e Projetos do Vereador.) à população serão mais fechadas do que mão de vaca.

Função Administrativa – “Desorganizarei os serviços da Câmara. Subornarei a todos,Isso inclui a escolha da mesa, a constituição das comissões, a organização da secretaria e a contratação de seus serviços. Minhas Audiências Públicas serão privadas. Ao integrar uma ou mais Comissões Permanentes da Casa, desapreciarei os Projetos específicos da área a que se dedica essa comissão. Quando necessitar de quórum para alguma votação, alugarei uma Van e levarei 2/3 do plenário para pegar uma praia , azarar uma minas e tomar umas cervejas contrariando o regimento interno. Rasgarei a Lei Orgânica ( Constituição Municipal. Um conjunto de Leis que regulamentam o Município. Tem de estar de acordo com as Constituições Estadual e Federal, sendo subordinada às mesmas) em mil pedacinhos , usando-a como adubo orgânico nos vasinhos de plantas da Câmara.Projetos de Lei? Só se for da Lei-do-cão!


Bem sincera minha campanha, não é ? O problema é que mesmo preenchendo todos os pré-requisitos para a candidatura, não consegui levar a cabo meu projeto. Tive o maior trabalho para me informar a respeito dos procedimentos legais, e pesquisei:

No Brasil, a lei eleitoral é bastante clara: para se candidatar a um cargo político, o cidadão deve estar filiado a um partido político a pelo menos um ano, ser maior de 18 anos, para candidatar-se ao cargo de vereador, prefeito, governador, deputado federal e estadual e maior de 35 anos, para o cargo de Senador e Presidente da Repúblíca. O futuro candidato não poderia ter nenhum processo pendente, nem civil e nem criminal.

Sim! Eu, até aqui, preenchia todos os requisitos!

Confirmei que não havia candidato independente ou candidatura avulsa. Somente através de um partido político que eu poderia pleitear o registro de minha candidatura.
Aí, eu procurei saber sobre filiação em partidos, onde descobri que, para que eu pudesse filiar-me a um partido político, a primeira condição é que eu deveria ser eleitor no município onde desejasse me inscrever. Só podendo filiar-me a algum partido se eu estivesse em pleno gozo dos direitos políticos.

Sim! Eu estava em pleno gozo!

Descobri, também, que havia regras estatutárias de cada partido e, ao inscrever-me, após um ano de filiação, para poder candidatar-me, eu já deveria de antemão apresentar ao partido a minha proposta de governo como vereador.

Moleza! Minha plataforma já tava na palma da mão! [ falando em palma da mão, ver PUNHETEIRO FRACASSADO ]

Fiquei sabendo também que estavam proibidos de se filiarem a partido político os militares, magistrados e promotores de justiça.

Eu não era militar, nem magistrado, nem promotor de justiça.

Beleza!

Vi que os partidos políticos devem encaminhar aos Cartórios Eleitorais relação dos filiados, nas segundas semanas (8/14) dos meses de abril e outubro. Esta relação deveria conter os nomes de todos os filiados, número de título e seções, para fim de arquivamento e publicação.

Parti, então, para os comitês dos partidos para poder afiliar-me e, já de antemão, apresentar a minha futura proposta de candidatura a vereador.

Meu propósito era candidata-me. Somente isso. Em qualquer partido que fosse, por isso fui em todos, sem exceção, apresentar a minha plataforma de governo. Diante da unânime recusa, e da decepção de não ser aceito em nenhuma, cheguei a conclusão de que teria que fundar o meu próprio partido político.
Mas aí já é outra história (ver FILIADO PARTIDÁRIO FRACASSADO).

AUTOR DE LIVRO DE AUTO-AJUDA FRACASSADO


Dia desses, lendo um blog de crônicas ( que não me lembro o nome), o autor do tal blog advertia aos leitores que não ousassem copiar sem autoria as suas crônicas, pois ele já as tinha registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional.

Registrado... Precaução? Pura pretensão, isso sim! O cara acha o quê? Que é um gênio da raça? Porra, se o cara se considerava produtor de alguma coisa que valesse a pena ser publicado, porque, então,teria colocado as porras das crônicas ( ruins pra caralho, por sinal) num BLOG? Escrevesse um livro então! Sim, você pode me dizer ( inclusive o filho da puta do autor do tal blog) que não é assim, que é dificílimo um autor desconhecido ser publicado hoje. Que as editoras, na maioria das vezes, usam a lógica do compadrio e do favorecimento, em detrimento de bons autores ( que, não seria o caso do autor desse blog – é... impliquei com o cara mesmo !). Mas, livro, artigo, blog, flog, trog, o caralho a quatro é nada menos do que a manifestação da necessidade de alguém se expressar ( lindo isso!). Se é bom, permanece. É isso que interessa. Mesmo que tenha sido copiado sem autoria. Impresso e repassado de mão em mão sem o conhecimento do autor.

Sabemos que a idéia em si de BLOG e SITE, ou qualquer coisa que esteja na internet, é de que possa ser controcelzada e controvelzada à vontade. Não há como burlar essa porra, qualquer semi-retardado sabe disso ( retardado é o autor daquele blog, que ainda não sabe).

Assim, de peito aberto, anuncio o projeto do meu último e ambicioso livro ( que não pretendo procurar editora) que imprimi por conta própria para vender de mão em mão, e o colocarei aos poucos, capítulo por capítulo, aqui no AUTOBIOGRAFIA DE UM MERDA. Ainda não vendi porra de cópia nenhuma ( ver NARCISO FRACASSADO), e nem acho que venderei. O livro chama-se COMO FICAR RICO ESCREVENDO LIVROS QUE ENSINAM COMO FICAR RICO.
Porra - hoje vejo - um livro com um título imbecil como esse já não estaria fadado ao fracasso? Por isso eu o colocarei na íntegra aqui. Quem ia ser o idiota de copiá-lo roubando a autoria? Ia queimar o próprio filme! Até me arrependi de gastar passagem e grana para registrá-lo ano retrasado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. Grana jogada fora!

Enfim, segue a introdução e o índice do referido livro futuramente fracassado. Depois coloco o resto ( no bom sentido, é claro!)


COMO FICAR RICO ESCREVENDO LIVROS QUE ENSINAM COMO FICAR RICO

Introdução

Se você é daqueles que andam por aí dizendo que não têm tudo que amam , mas amam tudo que têm, não continue a ler esse livro. Pare agora !
Continuou? Isso é um bom sinal.

Sabe aquela sensação constante que todos nós temos que nos faz acreditar que um dia ganharemos na mega-sena, uma herança de um parente desconhecido, ou que acharemos um pacote cheio de dinheiro no meio da rua ? Uma sensação estranhamente idiota que carregamos por toda a vida e que mesmo não tendo certeza de que haverá a mínima possibilidade que isso vá ocorrer, também não temos a certeza de que não ocorrerá. Com qual incerteza devemos viver? A incerteza de que um dia seremos milionários ou a incerteza de que continuaremos ferrados e sem grana pelo resto da vida ?

Nesse mundo de incertezas quanto ao futuro financeiro, tenho certeza que você já leu, ou pelo menos conhece alguém que já tenha lido algum desses livros:-

A Estrada Do Futuro (Bill Gates )
Como Ficar Rico ( Donald Trump )
Meu Primeiro Milhão (Cristian Godefroy )
Como Ficar Rico (Sharon L. Lechter)
Você Milionário ( Michael Leboeuf )
Arte De Enriquecer (Jose Antonio Pinotti)
O Milionário Mora ao Lado (Thomas J. Stanley)
Dicas Para o Milionário que Existe Em Você (Victor Zaremba)
Milionário aos Quarenta (Hermano Barbosa)
Pai Rico – O Guia De Investimentos (Robert T. Kiyosaki)
Milionário em Um Minuto ( Mark Victor Hansen )
Você Quer Ficar Rico? ( Eduardo Botelho)
Profecias Do Pai Rico (Sharon L. Lechter)
Como Ficar Podre De Rico ( Herd Kay)
6 Estrategias Para Vencer Na Vida (Wolf J. Rinke )
Pense Como Um Vencedor! ( Walter Doyle Staples)
Seja um Vencedor (Luiz Almeida Marins Filho)
Como Ser Um Gestor Vencedor (Ecio Nogueira)
6 Atitudes Para Um Vencedor (Norman Vincente Peale)
Como Vencer No Jogo Da Vida ( Tom Gegax )
Falando Como Vencedor (Leil Lowndes)
Filho Rico, Filho Vencedor ( Sharon L. Lechter)
Pai Rico, Pai Pobre Para Jovens (Lechter Sharon
Como Ficar Rico Com Network Marketing ( John Bremner)
Um Ano Para Enriquecer ( Napoleon Hill) ...

Essa é apenas uma pequena parte dos milhares livros de auto-ajuda que ensinam as pessoas a ficarem milionárias.

Sabe o que estes livros tem em comum? Já sei, você vai dizer que todos ensinam a enriquecer, a vencer na vida, a ficar milionário. Sim concordo, mas o que quase ninguém percebe é que todos esses autores ficaram ricos escrevendo esses livros! E os que já eram (bi) milionários , acabaram ficando mais ricos ainda!

Todos esses livros são best sellers. Vendem como água. Pode procurar. 90% desses livros estão esgotados nas livrarias. São sucesso garantido de vendas nesse 3º milênio de incertezas !

Quando eu tinha 20 anos, apostei com um amigo que faria o meu primeiro milhão de dólares antes dos 33. O prazo já estourou. O valor da aposta na época era mixaria, mas depois desses anos todos , com os juros e correção monetária corridos, devo hoje ao camarada uma fortuna !

Com um balanço negativo no banco, comecei a temer pelo pior. Enriquecimento ilícito estava fora de cogitação. Não por qualquer questão moral, mas por simples falta de contatos e competência suficientes para ser corrupto.

No desespero, li mais de 150 livros que ensinam a enriquecer. Todos de autores bem sucedidos. Não consegui obter um tostão a mais lendo esses livros. Apenas contraí mais dívidas nas livrarias, comprando tantos livros. Na verdade, acabei ficando mais pobre ainda...

Eis que surgiu a grande idéia. Por que não , escrever um livro que ensina às pessoas a ficarem ricas escrevendo livros que ensinam às pessoas a ficarem ricas?

[ Os capítulos do livro ]


Prefácio

Introdução

I- Já tiveram essa idéia? “...nada se cria , tudo se copia...”

II- Afinal, escrever sobre o quê?

III- Você se auto-ajudando a si mesmo (a auto-persuasão) - As dez mudanças mentais que você deve aplicar para acreditar que vai obter uma fortuna incrível escrevendo um livro que ensina as pessoas a ficarem ricas obtendo uma fortuna incrível escrevendo um livro que ensina as pessoas a ficarem ricas.

IV- Faça como o Roberto Carlos; tenha um milhão de amigos ( e faça com que cada um compre um exemplar do seu livro)

V- Quem rouba três contos...

VI- Uma escrita rica ou um rico escritor?

VII- Ajudando a tornar o autor do livro que estou lendo um milionário

VIII- Por uma distribuição mais justa de rendas (todo mundo do planeta tornando-se milionário)

IX- Quem conta três contos...

X - Anti-anti-auto-ajuda

XI- Fiquei rico ! E agora? Escrevo outro livro?

XII– Fortuna auto-crítica

domingo, 4 de janeiro de 2009

MARATONISTA FRACASSADO

Superação dos próprios limites: a célebre imagem da maratonista suíça Gabrielle Andersen-Schiess nas Olimpíadas de 1984, e chegando em penúltimo lugar. Dor no corpo, seqüelas, e situação de quase-morte. Coisa linda!

Comemoração do centenário de emancipação da minha cidade, Barra do Piraí. Era 10 de março de 1990. Festividades em geral. Shows na praça, gincanas, festas, cerimônias e ao final, uma célebre meia-maratona que percorreria todo o centro da cidade e alguns bairros vizinhos, uns vinte quilômetros, no máximo. Eu, com toda a minha jovialidade dos 15 anos inscrevi-me na tal corrida. Não sei até hoje o porquê. Apesar da idade, eu era extremamente sedentário e nem bola no campinho eu jogava ( ver JOGADOR DE VÁRZEA FRACASSADO). Não sabia o que estava fazendo lá, de bermuda, camiseta, short, tênis e um pano com um número costurado na camiseta, mas estava. Franzino, destoava dos demais competidores que, já adultos, com certeza iam me dar trabalho. Minha família inteira ao lado de fora do cordão de isolamento gritava o meu nome. Centro da cidade lotado. Palanque com as autoridades: prefeito, vereadores, secretário de esportes, o escambau. De repente, minutos antes de dar o sinal de largada, vi uma das minhas tias dirigindo-se ao palanque dos figurões e cochichando com uma moça que vai em direção ao prefeito. Sem mais nem menos o prefeito interrompe o discurso e aponta pra mim. Gelei.

- Nossa cidade, nos seus cem anos, ainda é uma cidade jovem, cheia de esperanças e de futuro, tal como o jovem ali que, com apenas quatorze anos, que é o maratonista mais jovem daqui. Sintamo-nos, todos os moradores dessa magnífica cidade, representados por essa determinação da juventude que vemos com tanto orgulho. Aplaudam o futuro da nossa cidade, o jovem Alexandre Coimbra!

Dezenas, centenas de dedos apontando pra mim, todos, milhares de pessoas, olham pra minha direção e começam a aplaudir. Minha pernas tremeram. Puta responsabilidade ser uma espécie de representação do bem-sucedimento futuro da cidade. Eu meio que era obrigado a ganhar aquela merda, pensei.

- Né quatorze não, caralho! Eu tenho quinze anos porra!

Minha família, quase toda chorando de orgulho. Eu já puto da vida.

- Todos preparados que será dada a largada! – disse um cara com um revólver na mão.

“Atira no meio do meu peito ô filho da puta. Quero morrer!”

PUM!

Correria tumultuada. Centenas de pessoas se empurrando violentamente. Eu, minguado e franzinho, pra lá e pra cá, como um boneco de pano, em meio às cotoveladas dos marmajões. Chamei na canela. Me empolguei. Nos primeiros dois quilômetros fiquei entre os cem primeiros. Comecei a me cansar. Pernas pesadas. Conforme eu ia passando pelas ruas, uma porrada de gente vinha na minha direção derramando, sem que eu pedisse, garrafas d’água na minha cabeça. Uma água gelada pra caralho. Neguinho que eu nem conhecia gritando meu nome. Uma senhora gorda e branca aos berros na minha direção:

- Vai lá futuro da cidade! Nossa esperança está contigo!

E taca, também, mais uma porra de uma água gelada na minha cara.

- Vai tomar no cu velha filha da puta! Enfia essa garrafa d’água gelada no rabo!

Começa uma dor insuportável do lado do meu abdômen. Parecia que uma faca tava atravessando meu baço. Pernas pesadas. Segurei as passadas, fui um pouco mais devagar. Muitos corredores passando por mim.

- Vai lá cara! Supere os próprios limites! – gritou um coroa me entregando outra garrafinha dágua.

Joguei a garrafinha de volta na direção dele.

- Superação dos próprios limites é a casa do caralho! Vem cá ô velho desgraçado correr nessa merda! Puta desgraça! Tô todo dolorido! Tô testando é o limite da minha paciência!

E mais e mais corredores passando voados por mim. Comecei a ter tonteiras. Puto, dor no baço, joelho latejando olhei pruma plaquinha que tava escrito “Maratona do Centenário – faltam 14 km pro final”. Putamerda, eu não tinha chegado nem na metade da porra e tava todo fudido. Quê que eu to fazendo aqui? Porra sem lógica ficar correndo. Correndo atrás de quê? Começou a me dar uma vontade de chorar. Já tinha gente que tava voltando lá do final do retorno e cruzando por mim. Eu indo ainda, pra dar ainda a voltona que eles já tinham dado. Os caras com a cara vermelha, bufando, desesperados. Superação dos próprios limites ? Deixa meus limites quietos. Que bosta sem sentido! Eu pensava enquanto corria bem devagar, quase andando. Resmungando sozinho:

- Porra pra casa do caralho essa merda de ficar correndo igual maluco. Esporte é uma merda! Só serve pra deixar neguinho frustrado com a derrota depois de meses de treino. Se alguém ganha, uma porrada perdem. E se cansam pra cacete pra no final acabar perdendo! Pancada na auto-estima do otário! Se é pra me sentir fracassado, que seja descansado, sem o corpo dolorido! Isso não é comigo não, caralho! Tô fora!

E numa unhada arranquei a porra do número que tava colado no meu peito. Desviei-me da rota da maratona sem que ninguém percebesse ( também, como eu já estava entre os últimos, já não tinha quase ninguém perto de mim...). Sai numa rua deserta e parei no primeiro botequim que eu vi.

- Me dá uma cerveja e um cigarro aê mermão!

[ está estranhando eu beber e fumar já tão jovem? Ver AMIGO OCULTO FRACASSADO ]

O gordo do balconista do botequim querendo botar areia.

Quantos anos você tem moleque?

- Idade suficiente pra saber que esporte é coisa pra otário masoquista! Me dá aê a porra da cerveja e um varejo aê caralho!

O cara foi com a minha cara. Sentiu firmeza no meu lero. Colocou a cerva no balcão, dei um gole grande no gargalo mesmo e acendi o cigarro dando uma tragada gostosa e profunda. Me senti perfeitamente bem. Tomei mais umas duas cervejas e saí cambaleando fumando um cigarro em direção ao centro, à linha de chegada. Cortei caminho e cheguei a tempo de ver de trás de uma árvore escondido o último colocado chegando esbaforido.

Percebi que todos estavam esperando a retumbante chegada do mascote representante do “futuro da cidade”. Olhei pra minha família lá longe que , sem entender, estava me esperando.

- Cadê o moleque? O futuro da cidade? – gritou um cara ( devia ser da oposição) pro palanque do prefeito.

Todos gritando. Eufóricos. A superstição predominava geral. O povo foi se espalhando sem esperança no futuro. Acho que era isso.

Escondido, ninguém tinha me visto. Dei outra tragada gostosa no cigarro e voltei pro botequim.

sábado, 3 de janeiro de 2009

ADORADOR DO DIABO FRACASSADO


Foto de alguns dos meus ex-amigos satanistas dando-me boas vindas. Saudades. Galera gente boa!


Dezessete pra dezoito anos. Auge da crise na adolescência ( meio tardia até). Busca de identidade e principalmente de respeito. Respeito se conquistava pelo medo, eu pensava. E medo se provocava pelo avesso. Algo que, contrário às normas, fizesse com que as pessoas se afastassem. Nazismo estava fora de questão, já que meses antes eu já experimentara uma situação de fracasso dessa área ( ver NEO-NAZISTA FRACASSADO). Avesso ao convencional, à família, à pátria, à religião. Isso mesmo: à religião! Ia me tornar um adorador de satã! Mas adoradores de satã não saem na rua fazendo passeatas, reivindicando os seus direitos. Como eu ia entrar em contato com essa galera do mal ? Comprei alguns livros e achei uma babaquice danada. Mas o que eu queria, não era me converter, até porque eu achava esse lance de satanismo uma palhaçada do cacete, mas eu precisava andar no meio dessa galera pra que todos, sabendo disso, respeitassem o novo satanista da praça. Na época não existia Internet, portanto não seria fácil como hoje descobrir células ou núcleos de adeptos dessa assustadora (anti) religião. Procurei em jornais e revistas, até que um amigo meu roqueiro ( daqueles metaleiros da pesada) me batera o lance: havia um grupo de deathbangers na região que curtia esse lance que eu queria conhecer. Deathbangers ? Que merda é essa? Perguntei, no alto da minha ignorância musical. Deathbangers, o camarada me explicou, são uma subcategoria do rock pauleira que ouvia bandas que pregavam o satanismo e o anti-cristianismo. Veneravam ( os tais deathbangers) principalmente bandas gringas.

Comecei a pesquisar sobre o lance. Vi que existia uma indumentária própria dos deathbangers: calça de couro e camisa preta com o nome da banda favorita, coturno, cabelo grande e bracelete couro e pregos. Bracelete couro e pregos? Pra quê essa merda? Pensei cá com os botões da minha camisa pólo ( até então, o único tipo de uniforme que eu usava). Mandei ver. Fui ao Rio de Janeiro numa loja especializada, comprei o uniforme completo ( inclusive com bracelete de couro e pregos) e uma peruca preta de longas madeixas lisas.

Perguntei pro tal camarada meu, onde os satanistas se encontravam.

- No cemitério – ele disse.

Porra, cemitério? Que merda! Será que não havia, pelo menos, encontros esporádicos no Mc Donalds ou no Bob’s ?

- Não! – respondeu metaleiramente lacônico o brother.

E continuou:

- Mas se você quiser encontrar todos, inclusive os cabeças da gangue, eles se encontram numa loja de discos na cidade vizinha. Amanhã abre.

Podicrê.

No dia seguinte, meti minha fantasia ( digo, “visual”) , bandana pra prender bem a peruca e, antes de sair de casa, tava tendo um churrasco no quintal, todos os meus tios e primos todos caindo na gargalhada e olhando pra mim. Começaram a me chamar de gótico. Era 1992, e tava passando uma novela na Globo chamada De corpo e alma que tinha uma gangue de góticos. Eu putão tentando explicar que gótico era coisa de boiola depressivo e que eu era satanista sinistrão, mas neguinho não me ouvia. Ficavam gritando “Reginaldo”, “Reginaldo”, que era a porra de um personagem vivido pelo ator Eri Johnson que era essa merda na novela, e riam pra caralho.

- U-U-A... – era o barulho que fazia quando o personagem Reginaldo entrava em cena e eles, aos berros gritavam pra mim.... U-U-A...

- Vai tomar no cu!

Sai puto da vida. Calor do caralho, todo mundo de sunga e short sem camisa na rua e eu todo de preto, peruca e bandana de caveira e o tal bracelete de couro e pregos que comichava pra caralho.

Peguei o ônibus e cheguei na tal loja. Todo mundo de calça de couro preta, camisa preta, coturno e bracelete de couro e pregos. Eu, ali, tava em casa.

- Yeaahh! -sinalizei berrando ao entrar na loja e fazendo com as mãos o metaleiro sinal dos chifrinhos, levantando o indicador e o mindinho. Silêncio. Todos me regularam. Fiquei esperando.

- Yeaahh! -todos responderam.

Respirei aliviado e comecei a me enturmar. Papo satanista vai, papo satanista vem
e percebi que, no meio da galera da loja, tinha um cara que parecia ser o mais respeitado.

- Quem é esse cara? – perguntei pro cara de calça de couro preta, camisa preta, coturno e bracelete de couro e pregos que tava do meu lado.

- Ele é o Black Mass, o cara mais sinistro da galera. Ele é quem consegue as fitas cassetes da bandas mais power-violentas gringas. Só parada desconhecida. O cara é foda! Tem até uma estátua tamanho natural do Satã no meio da sala dele!

[ Lembre-se que nessa época, meados de 1992, não existia esse lance de baixar facilmente músicas na Internet. Na verdade nem existia Internet e muito menos CD. Era só vinil. E os vinis importados eram caríssimos. Sobretudo os de deathbangers.]

Comecei a olhar na prateleira da loja e vi nos vinis cada nome mais estranho do que o outro: Mantas, Celtic Frost, Morbid Angel, Cannibal Corpse, Marduk, Emperor, Gorgoroth, Dimmu Borgir, Cradle of Filth, Immortal, Dark Funeral, Darkthrone Death, Obituary, Deicide, Cryptopsy, Nile, Benediction.

Cada nome besta ( nem só o número era da besta – ri sozinho do trocadilho! ). E tudo caro pra caceta. No som da loja um som barulhento pra cacete, parecendo um motor de trator. Um som embolado com uns grunhidos ininteligíveis.

Peguei um dos vinis, de uma banda chamada Deicide e perguntei pra outro camarada cara de calça de couro preta, camisa preta, coturno e bracelete de couro e pregos:

- Que banda é essa? É pauleira?

- Qual é cara? Cê tá de sacanagem! Deicide é uma banda de death metal dos States, formada em 87. A palavra "deicide" significa "O ato de matar um ser de natureza divina; particularmente cruxificarJesus Cristo". A palavra pode significar também "Aquele que tem interesse em matar Cristo". Dizem, inclusive, que o vocalista, Glen Benton, tocou fogo em várias igrejas.

Fiquei bolado.

Continuei perguntando:

- Mas essa banda é a clássica banda de Death Metal? Satanistona mesmo?

- Cara, o death metal é um estilo musical extremo que aborda desde satanismo, guerras e até assassinatos,suicídios e carnificinas.O death metal tem muitas outras vertentes dentro de si, como thrash death metal, tech death metal, splatter death metal, death metal melódico, brutal death metal entre outras. O som é caracterizado por riffs pesados e distorcidos e por vocais guturais. Mas c~e você tá querendo paradas satanistas, é melhor cê curtir Black Metal que á é a vertente mais extrema e obscura dentro do heavy metal. O Black surgiu no começo da dácada passada com bandas como Venom e Mercyful Fate. O som, nesse caso, é caracterizado por letras satanicas, por vocais rasgados e riffs de guitarra rápidos e pesados.

Minha cabeça latejava. Calor pra caralho, somado ao excesso de informações que o camarada disparava e a bandana na peruca que tava apertando pra cacete. Bracelete penicando. Saí da loja, mas não sem antes disparar o Yeaahh!

- Yeaahh! – meus novos amigos responderam carinhosamente.

Cheguei em casa e ainda tava rolando o churrasco. Samba do Dicró no talo do toca fitas. Neguinho bebaço olhando pra mim:

- U-U-A... Reginaldoooooo! U-U-A... Reginaldooooo!

Sai direto pro meu quarto pra tirar aquela porra daquela roupa calourenta pra caralho.

Minha mãe triste veio na minha direção.

- Meu filho, sabe porque tá havendo esse churrasco hoje? Hoje é o seu aniversário! E você nessas roupas de gótico saiu disparado e nem deu tempo de você abraçar a sua avó e as suas tias que já foram embora. Deixaram uns presentinhos aqui pra você.

Eu nem tinha me ligado, distraidão, esquecera do próprio aniversário. Uma sexta-feira 13. Raros os meus aniversários que caiam na sexta-feira. Senti que era predestinação, eu tinha que ser satanista mesmo. Duvido que meus tios cachaceiros não iam me respeitar, pensei.

- Aqui meu filhinho, seu presente que eu comprei que cê tanto queria. É de segunda mão, mas tá inteirinho.

Era um gravador cassete portátil c/ pausa Aiko Atm 709, com toca-fitas e gravador de som ambiente. Meus olhos marejaram d’água.

-Brigadão mãezinha! Beijo! Beijo! Beijo!

Corri feliz da vida pro quarto e coloquei dentro uma fita do RPM que eu curtia pra caramba. Apertei o botão e saí pra tomar banho. Só que, sem perceber, eu acionara o botão de gravação do som ambiente. Quando eu voltei do banheiro, estranhando que não havia começado a tocar, verifiquei a fita e vi que ela já tinha passado um lado todo. Voltei a fita, e ao ouvi-la, vi que tinha apagado um lado inteiro da minha fitinha de estimação do RPM gravando a porra do Dicró que tava rolando no churrasco. Só que, como o toca-fitas era de segunda mão e o gravador provavelmente estava desregulado, o som que saía das fitas era um som torto, grave, sinistro, com uns berros infernais ao fundo. Porra, que berros eram aqueles? Descobri.Era dos meus priminhos encapetados esgoelando no corredor brincando de pique e fazendo bagunça.

“Encapetados?” – pensei.

Putaquepariu! Já sei o que eu vou fazer!

Peguei umas revistas de ciências que eu tinha, recortei uns desenhos de uns ossos e colei num papelzinho de forma que fizesse uma cruz de cabeça pra baixo. O símbolo do anti-cristianismo. Do satanismo mais sinistro. Escrevi de canetinha em cima da tal cruz “Profanity” e corri pro centro da cidade pra tirar uma xerox da minha colagem.

De volta em casa, preparei a capinha, coloquei a fita dentro e me sentido um Rambo em busca de uma ação, coloquei cheio de orgulho minha camiseta preta, meu coturno, minha peruca com bandana de caveira e o tal bracelete de couro e pregos. Parti pra loja novamente. Era, já, quase seis da tarde quando eu entrei na loja. Estava lotada. Dessa vez, com um ar meio blasé, metidão, dirigi-me ao dono da loja e falei:

- Bota esse som pra rolar aí mermão!

O cara pegou a caixinha, olhou o desenho da capa intrigado e tirando a fita de dentro, taca logo direto no toca-fitas Pionner da loja.

Um estrondo nas caixas de som chama a atenção de todos que se voltam pra minha diração. Uma barulheira infernal começa a tomar conta da loja. Todos pasmos começam a se aproximar.

- Ca-ra-lho! Que som é esse cara? Nunca ouvi uma palhetada de guitarra tão rápida. Esses berros parecem estar saindo diretamente do inferno! – disse-me um cara de calça de couro preta, camisa preta, coturno e bracelete de couro e pregos.

No meio da aglomeração, todos abrem um espaço pra alguém que abrindo caminho vem pro meu lado. Era o Black Mass. Tremi.

- Que som é esse aí, velho? Nunca ouvi isso!

- É-é d-de u-uma banda inglesa de black-death-power-satanic-metal que eu trouxe da última viagem que eu fiz pra Inglaterra. Chama-se Profanity. Eu soube que o vocalista, John Black Cataplasm, já estuprou metade das freiras de um convento, tacou fogo no portão principal do Vaticano e fez sopa de letrinhas com a Bíblia.

Black Mass se afasta e dá as costas pra mim raivosamente.

Todos os satanistas da loja ouvindo minha história, vêm em minha direção me abraçar. Levantam-me no alto e lá de cima vi o Black Mass encostado na parede de cabeça baixa . Eu era o novo rei do pedaço. O novo chefe dos satanistas! Todo mundo ia me respeitar! Inclusive os meus tios pagodeiros.

As lágrimas corriam dos meus olhos de satanista, até que, de repente, começa a tocar nas caixas de som da loja:

Sinais de vida no país vizinho

Eu já não ando mais sozinho

Toca o telefone, Chega um telegrama enfim

Ouvimos qualquer coisa de Brasília

Rumores falam em guerrilha

Foto no jornal, Cadeia nacional

- Que porra é essa mermão?

Colocam-me violentamente no chão. Vários caras de calça de couro preta, camisa preta, coturno e bracelete de couro e pregos me cercando. Nesse momento eu descobri a função do tal bracelete de pregos.

- RPM... falei gagejando.

Continuei a cantar pra tentar descontrair.

“Viola o canto ingênuo do caboclo

Caiu o santo do pau ôco

Foge pro riacho, Foge que eu te acho sim

Fulano se atirou da ponte aérea

Não agüentou fila de espera

Apertar os cintos, Preparar pra descolar"

Eu, vendo que o tempo ia fechar, e que eles sacaram que tinham sido tapeados, que a fita não era da Inglaterra porra nenhuma, saí em disparada de dentro da loja.

Olhei pra trás. Black Mass praguejava à todos os demônios. Dizendo que faria um vodú meu. Que iam me matar.



De longe eu ainda escutava:


Nos chegam gritos da Ilha do Norte

Ensaios pra Dança da Morte

Tem disco pirata, Tem vídeo cassete até

Agora a China bebe Coca-Cola

Aqui na esquina cheiram cola

Bio degradante Aromatizante tem

MOCHILEIRO FRACASSADO

o MERDA, aos 32 anos, conhecendo o mundo do morro mais alto da sua cidade ( Barra do Piraí- RJ)

A tecnologia às vezes nos traz grandes decepções. As vantagens, não vou enumerá-las, pois já estamos carecas de saber. Aliás, falando em carecas, até hoje não inventaram uma tecnologia eficaz que Resolvesse o problema da cavície, né? Mas, voltando às vacas frias ( nunca entendi o porquê desse termo!), minha grande decepção tecnológica vem do tal “mundo virtual”. Mundo esse que não podemos apalpá-lo, mas sabemos que está lá, nesse universo paralelo chamado Internet. E o meu mundo veio abaixo justamente pelo fato desse mundo ( o virtual) tê-lo desmascarado ( o meu mundo).

Tentarei explicar.

O tal mundo virtual, como eu já disse, obviamente sabemos que não é palpável. Por enquanto, a internet não tem cheiro, não tem gosto e comparada ao mundo real, não tem graça nenhuma. Justamente porque não é real. E o mundo real é real porque é real.

“Porque é real? Como assim? Que porra de explicação tosca é essa? É porque é? É só isso?” Você me pergunta.

Aí é que tá o “x” da questão, e a explicação pra minha insatisfação.

Nas aulas de geografia, lá pelos meus quatorze, quinze anos, eu aprendi que a Torre Eiffel ficava em paris, que as Cataratas no Niágara ficavam localizadas no Rio Niágara, no Leste da América do Norte, entre os lagos Erie e Ontário, na fronteira entre o estado americano de Nova Iorque e da província canadense de Ontário ( decorei essa porra toda até hoje). Aprendi que a Muralha da China tava lá, na China é lógico, desde 220 a.C. Entre outras coisas. Usando um lugar comum, nessas aulas eu viajava muito além das fronteiras da minha imaginação.

Mas eu, nessa idade, me intrigava com várias coisas e, entre elas , as aulas de Geografia e História ( ver ESTUDANTE FRACASSADO) eram as que mais parafuseavam minha pequena cabeça ( nem tão pequena assim: ver CABEÇÃO FRACASSADO) . Eu sabia que Colombo havia provado que o mundo era redondo, que a terra era real. Já tinha visto naquele atlas verdão do MEC ( alguém lembra?) os continentes, seus países e cidades e decorado os nomes das principais capitais. Tinha visto fotos na National Geografic, filmes, documentários que retratavam pessoas, lugares, monumentos milenares, enfim que o mundo realmente existia.

Existia? Eu me indagava.

Aí é que entravam as minhas dúvidas: Por que eu deveria acreditar que o mundo realmente existia se eu não o tinha visto pessoalmente? Eu nunca havia apalpado a Torre de Piza pra ter certeza de que ele realmente existia. Eu nunca tinha pisado no solo na Praça da Paz Celestial . Por que eu deveria acreditar que isso tudo realmente existia? Existia porque existia? Porque eu tinha National Geografic e Atlas verdão do MEC pra provar? Divagava minha pequena-grande cabeça atormentada.

Hoje vejo que o maldito Atlas do MEC representava pra mim o que a fogueira representava para Platão e seus habitantes da caverna ( pode-se perceber nessa frase que acabei de escrever, que a minha mania de filosofar cresceu proporcionalmente ao tamanho do cabeção).

O mundo real pra mim não podia ser virtual, tinha que ser palpável, olfativo, degustativo, pisável, auditivo, visual, realmente visual.

Então, eu determinara nessa idade que quanto mais longe eu distanciasse do meu mundo, mais perto eu chegaria do mundo real. Mas como eu faria isso? Como eu iria constatar a realidade de cada milímetro da terra, se eu não tinha dinheiro nem pra pegar um ônibus pra andar vinte quilômetros de distância da minha casa? Como é que eu iria pessoalmente na, então, União Soviética ver se o tal Kremlin de Moscovo tava lá? Ou melhor: se a União soviética tava lá?

“Quando eu for adulto vou viajar o mundo inteiro! Vou ter dinheiro e vou virar mochileiro e atravessar a Europa de trem. Vou sim! Isso é fácil prum adulto!”

Enquanto esse dia não chegava, eu , aos quatorze anos, chegara a uma conclusão: enquanto eu não virasse adulto com grana pra dar a volta ao planeta, eu consideraria que meu mundo iria existir até que a minha vista alcançasse. Eu, assim, passei a subir no topo dos morros da minha cidade ( que é cercada deles) e determinei que o meu campo de visão seria a delimitação do meu mundo. Assim, eu cabeçudinho lá de cima do morro, via os outros morros e morros e via pequeninos os carros, as casas, as pessoas. As pessoas iguais as formigas, mas que não eram formigas, eram pessoas de verdade. E, lá em cima do morro, certa vez, quando eu tropecei num formigueiro de formigas cabeçudas, vi que o mundo das formigas era muito pequeno e pensei que quando as formigas subissem no morro das formigas iam pensar igual à mim, em relação às pessoas, quando olhassem os microorganismos, as bactérias, e, com isso eu percebi a insignificância das formigas e eu fiquei com medo porque eu pensei em mim. Formiga cabeçuda insignificante e eu semelhante na insignificância e na cabeça avantajada. E no meu mundo, eu torcia pra que eu crescesse logo e parasse de ficar pensando nessas coisas. E quando eu crescesse, eu poderia, enfim, como qualquer pessoa adulta normal, viajar pelo mundo e conhecê-lo.

E cresci.

E quis conhecer o mundo. Na verdade eu, aos 32 anos, já evoluíra bastante em relação ao cabeçudinho de 14: conhecia mais de 10 lugares no mundo. Todos no estado do Rio de Janeiro, perto de Barra do Piraí, a cidade onde moro. A profecia do cabeçudinho não se concretizou. Nunca tive nem uma porra de um centavo pra ir pra lugar nenhum. Sem grana, sem carteira de motorista, sem nunca ter viajado de avião. Meu conhecimento real do mundo não passava de um raio de 300 quilômetros de distância da minha cidade ( a mesma dos morros). Viagem internacional, só quando eu tinha ido até o Paraguai pra trazer muamba quando eu era camelô ( ver CONTRABANDISTA FRACASSADO) e aos estados circunvizinhos ao meu. Não havia passado de Guarapari e Juiz de Fora. Praia, só as do litoral fluminense. Avião, nem pensar. Só ônibus. E dureza. E decepção. Cabeção (crescera bastante, boné só tamanho GG ) latejando, continuava com as minhas elucubrações infantis.

Até que, em março de 2007 ( e ainda sem conhecer o mundo), curiosamente mexendo na Internet, descobri um site chamado Google Earth.

http://earth.google.com/intl/pt/


Fiquei intrigado. O quê seria isso?

Perplexidade!

O mundo já poderia ser assustadoramente visível. O mundo todo, metro a metro, à cores. Bastava digitar uma cidade qualquer e zzooooooooommmmmmm!, tava lá, eu de pertinho vendo, pra minha incredulidade, o virtual se tornando real. Ou o real se tornando virtual, sei lá. Podia ver o Kremilin, As Cataratas do Niágara, a Muralha da China...

Meus devaneios de menino desfizeram-se, meu coração partiu-se em pedaços ( parece até letra de samba...) , já não tinha graça subir no morro mais lato da minha cidade, até porque, eu vira, agora via Google Earth por satélite, pra minha decepção, que o tal morrão que eu sempre subia na infância nem era o maior morro da região, como eu pensava. Eu, na verdade, naquele momento, não via nada. Nesse momento eu estava me sentido uma formiga. Na verdade, uma bactéria. Eu sou uma bactéria inerte.